De há uns anos para cá, o mundo jornalístico ligado à política decidiu criar a forma arquitetónica do “Arco da Governação” ou “Arco da Responsabilidade”. Tais arquitetos desenharam tal forma com princípios bem definidos: criar a sensação na sociedade portuguesa de que só existem 3 partidos, sozinhos ou coligados, com sentido de responsabilidade para governar Portugal.

PS, PSD e CDS-PP construíram determinada obra com objetivo de excluir a chamada “esquerda radical”. Por “esquerda radical”, podemos situar as forças políticas e sociais mais à esquerda do PS. Associados à “esquerda radical” aparecem logo termos como “irresponsáveis” (ligado às propostas e alternativas políticas) “subsídio-dependentes” (ligado à cultura) ou “interesses instalados” (este último ligado à atividade sindical). É sem qualquer tipo de pudor que ouvimos de comentadores políticos, políticos comentadores, jornalistas políticos e políticos jornalistas, frases como “não há outra solução possível”, “este é o único caminho”, ou frases proféticas do Apocalipse como “estávamos perto da bancarrota” e “não fosse a luz da troika e não tínhamos dinheiro para pensões e reformas”.

Mas falemos da minha preferida da intelligentsia nacional: eles só sabem criticar. Não apresentam alternativas. Tal programa ideológico só pode ter como finalidade atirar areia para os olhos dos portugueses de forma a denegrir um órgão já de si com péssima imagem: o parlamento. Nada dá mais jeito para a troika nacional do que a visão maniqueísta do parlamento. De um lado estão os que fazem e do outro os que se limitam a dizer mal. Neste ponto, o jornalismo português tem uma responsabilidade acrescida, pois normalmente o que sai na comunicação social tem um conteúdo sensacionalista, demagogo e populista. Faits divers em suma. Será que sabemos que todos os dias propostas são apresentadas, discutidas e votadas? Será que conhecemos o trabalho dos deputados do nosso círculo eleitoral? Já repararam nos deputados que visitam a Trofa? As suas propostas? Será que alguém se lembra de um deputado do PCP que tenha visitado e apresentado propostas para resolver problemas da Trofa? Sem querer incorrer em soberba, digo que sim. E do PS, PSD e CDS-PP? Façam um esforço, porque afinal estas forças políticas em conjunto elegeram 35 deputados pelo círculo eleitoral do Porto.

Por fim, só tenho medo que o arco lhes cai em cima.

Ricardo Garcia