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Edição 698

A Trofa na rota da Via Romana (VIA XVI Braga-Porto-Lisboa) – Parte 3

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Caminhos de Santiago (pela Via Romana) com passagem pela Trofa

Porque não voltar a reconstituir essa mesma via?

Pela Via Romana (XVI), em direção a Braga ou Espanha, pela ponte da Lagoncinha – e antes desta, pelo centro da Trofa -, ao longo dos tempos, viajaram e/ou “peregrinaram” várias centenas ou talvez milhares de altas individualidades do Império Romano, altos dignitários da Igreja Católica (Cardeais, Bispos) e da Coroa (Reis, Rainhas, Príncipes, Princesas).

a)- Segundo vários cronistas, a Rainha Santa Isabel recebeu como dotes (de casamento com D. Diniz) algumas vilas importantes de Portugal, ao tempo, a saber: Abrantes, Óbidos, Alenquer, Ponte de Mós; vários castelos: Vila Viçosa, Monforte, Sintra, Ourém, Feira, Gaia, Lamoso e outros reguengos de Gondomar, Rebordões (S.Tiago), Cedões (antigamente Codões – Santiago de Bougado). Após a morte de seu marido, em julho de 1325, a rainha encetou a primeira de duas peregrinações a Santiago de Compostela, tendo iniciado a sua viagem em Coimbra, passou pelo Porto, a seguir pelos “três terrenos em Cedões” (Santiago de Bougado) – que haviam sido seus, mas que o Rei lhos havia retirado. Segundo nos descreve Napoleão de Sousa Marques no seu livro “Cidade da Trofa – Duas Comunidades… Um só Povo”, “O caminho velho português, aquele que, atravessado o rio Douro, metia direito a Braga pelo trilho da mais que milenária via romana. Com as aias e homens de armas da comitiva, todos ainda a guiar-se, … por um ou outro miliário que os prevenia dos passos, contados por milheiros, … a Rainha Santa Isabel, ao descer da encosta da Serra de Bougado para as ínsuas que bordejavam o estreito ribeiro de Covelas, naquela altura do ano minguado… lá atravessou Cedões, na Terra da Maia, aquele povoado que fora seu por curto espaço de tempo e do qual, como é admissível, nem sequer lhe restaria memória…”. Daqui, desta povoação “de Vila de Zadones” (mais tarde Cedões) lá seguiria a caminho do centro da Trofa, Barcelos, etc, utilizando a antiga Via XVI em direção a Santiago de Compostela, a fim de cumprir suas promessas. A monarca seguiu esta rota, pois (a mesma) era uma das principais “Vias Romanas”, (na antiguidade), que fazia a ligação entre Lisboa, Santarém, Porto e Braga e esta cidade a Santiago de Compostela.

b) Em duas ocasiões, o Rei D. João I visitou o Mosteiro de Santo Tirso, a primeira no longínquo dia 14 de outubro de 1385, logo a seguir à Batalha de Aljubarrota. Depois, passados alguns anos, voltou a este Mosteiro, tendo permanecido neste Convento beneditino de 6 a 8 de agosto de 1409, precisamente há 610 anos.

c) Outro facto histórico a registar: Rodrigo da Cunha Salgado foi sagrado bispo em Portalegre e fora designado para pastorear a Arquidiocese de Braga. No dia 8 de novembro de 1615 entrou solenemente no “Arcebispado de Braga” pela Ponte da Lagoncinha, tendo a aguardá-lo altas individualidades civis, religiosas e muito povo. Os lavradores receberam-no em Lousado com um “grandiosos arco triunfal, alto e bem feito, tecido de ramos verdes de carvalho e castanheiro”…

PROPOSTA:
Se outrora o traçado da Via Romana XVI “trazia” à Trofa várias centenas ou talvez milhares de pessoas (incluindo altos dignitários religiosos e da Coroa) nas suas viagens em direção à cidade de Braga e Santiago de Compostela, para quando propor candidatura deste histórico troço da Via Romana a Património de Interesse Cultural-Turístico-Religioso Mundial? Porque não aproveitar fundos europeus para reconstituir ou requalificar esta antiga Via Romana para caminho alternativo a Santiago de Compostela? Têm a palavra as altas individualidades locais e/ou nacionais.

Nota final:
A Câmara Municipal de Vila Nova Famalicão procedeu, em 2018, Ano Europeu do Património, a uma requalificação do tabuleiro da Ponte da Lagoncinha e nestes últimos dias colocou uma placa, junto a esta ponte, assinalando o Caminho de Santiago. Quererá dizer que pretende recriar (recuperar), a partir desta ponte, a antiga Via Romana (o Caminho) em direção à Catedral do Apóstolo Tiago Maior, aproveitando as infraestruturas históricas existentes no seu concelho?

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Edição 698

A Trofa na rota da Via Romana (VIA XVI Braga-Porto-Lisboa) – Parte 2

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Reconstituição possível do traçado da antiga Via Romana – da Carriça à Ponte da Lagoncinha

Vinda de Olisipo (Lisboa), com passagem por Cale(Porto), e chegada à Carriça (Muro = Milha XXIII), mais ou menos paralela ao atual traçado da atual EN 14), no cruzamento da Carriça, a antiga estrada (Via Romana XVI) virava à esquerda, atual Estrada Nacional 318 (Paços de Ferreira-Vila do Conde), ladeando duas casas antigas, pertencentes à atual família Couto Reis, cujo brasão “de família” nos aparece por cima da porta de entrada daquela que outrora terá sido uma Venda (e Hospedaria?), local de paragem “obrigatória” para descanso de animais e pessoas.

A propósito desta zona da Carriça, (cruzamento e casa “brasonada”), faz-se aqui um parêntesis para referir o que Alberto Pimentel escreveu numa das suas crónicas de uma Viagem (de Mala Posta) de Porto a Braga, em pleno século XIX:

“Partia-se do Porto às 11 horas da noite, saindo da rua de Entre-Paredes e rodava-se pela Batalha… até ganhar o largo de Aguardente, que era nesse tempo o limite do povoado da cidade. Depois entrava-se em pleno campo… fazendo-se a primeira paragem na Carriça, onde o Silva, um homem forte e ancho, sempre de jaqueta, chapéu redondo na cabeça, vendia aos passageiros uma água de castanhas, a ferver, convencionalmente denominada café”.

Continuando a viagem: Volvidos cerca de 80 metros, a via fletia para a direita (atual Rua de Santa Maria), já no território de Alvarelhos; andados pouco mais de uma centena de metros, voltava à direita, por um caminho semi-requalificado; daqui, por entre pequenos “carreiros” rurais chega-se à Quinta do Paiço; junto desta quinta, em Sobre-Sá, apareceu um epitáfio de Ladronus, referindo o Castro de Madequisensis, possivelmente designado por Madiae, topónimo que poderá estar na designação do atual concelho (Maia?) hoje no Museu da Maia (Silva ACF 1980); desta, a via seguiria pela Ribeira da Aldeia, ainda em Alvarelhos, depois em direção à Peça Má, Lantemil (Milha XXII), descia a serra de Bougado, contornava uma pequena elevação (monte), onde veio a ser construída a capela de Nossa Senhora da Livração, descia alguns metros, para próximo do ribeiro de Covelas (agora Rio Trofa), “atravessava” (passava sobre) a antiga ponte romana de Cedões, onde foram descobertos quatro marcos miliários. A partir daqui, segundo relatam alguns historiadores (um dos quais é o Prof. Dr. António Cruz), seguiam duas vias em direção ao atual centro da Trofa, sendo (a primeira via) – a que vem descrita pelo autor bougadense, – aquela que “virava à esquerda” passando ao lado da “velha ermida de Nossa Senhora da Graça, hoje da invocação de Santa Luzia”, em direção à Samogueira, local onde foi construída a Estalagem/ou Venda da Samogueira, de que restam ainda hoje alguns vestígios, sobretudo na entrada desta casa; seguia em frente, passando ao lado do atual Mercado/Feira da Trofa, até ao largo do Padrão, e seguia em direção ao Vau. A outra via iniciava junto à ponte de Cedões, rumava para o centro da Trofa, passando pelo “Monte da Carriça” (onde foi erigida a atual capela da Nossa Senhora das Dores), Valdeirigo, Estação Velha da Trofa/Igreja Matriz de S. Martinho de Bougado e Real.

Estalagem da Samogueira

No que diz respeito à primeira via, no (atual) Largo do Padrão, em Bougado, havia uma outra Hospedaria, agora Restaurante do Padrão, onde ainda hoje se encontra um vestígio, uma pequena “argola”, onde se prendiam os cavalos). A via seguia até à Barca, pelo lugar de Finzes. Num dos largos deste lugar, foi construído um monumento em homenagem aos Trofenses “tombados” em defesa da Barca nas célebres Invasões Francesas, naturais, quer da freguesia de Santiago de Bougado, quer da de S. Martinho de Bougado). “Continuando o seu curso, a par e passo, a via segue(iria) quase em linha recta, (entre casais e estabelecimentos fabris)” (Napoleão de Sousa Marques, em Cidade da Trofa, Duas Comunidades, Um só Povo), pelas atuais Ruas Ramalho Ortigão e Antero de Quental, sempre próximo da margem do rio Ave em direção à atual Rotunda dos Bombeiros, cortava a atual EN 14, passava paralela ao quartel dos B.V. da Trofa (Rua Alberto Pimentel), até ao Cruzeiro de São Martinho – o mais antigo e histórico cruzeiro desta freguesia, construído em 1622-, continua(va) passando em frente da Casa da Vinha, em direção a Real, lugar onde existia uma ponte romana “de aduelas” por onde passa o ribeiro de “Real” ou de “Paradela”, ponte essa que foi substituída pela atual (de betão) em 1960, sem antes ter havido o mínimo de sensatez de, ao menos, se ter deixado, em local bem visível, uma “aduela” como “relíquia recordativa” para a história. Para que conste, o nosso conterrâneo e arqueólogo Abade Joaquim Pedrosa deixou-nos o seguinte testemunho, sobre esta ponte primitiva, entretanto demolida: “Mas, no lugar de Real, sobre um córrego, perto da estação da Trofa há uma ponte romana, um ‘arquinho’ de aduelas…”

A via continua(va) quase que esbarrando frontalmente na Casa de Real,… “flecte em ângulo recto…”, volta a dobrar a 90º (fazendo curva e contra-curva), e lá vai em linha reta, passando junto da Casa da Eira (restaurada recentemente); até que, na atualidade, a 200 metros, é cortada pela linha de comboio, para depois seguir pela Rua Teixeira Lopes, Rua Júlio Brandão (na Esprela), descendo em direção ao Rio Ave, atualmente por um “carreiro”, (ladeando a vedação da linha da CP, tendo a “Ponte de Ferro” à esquerda), segue por caminho em terra batida – paralela à margem do rio Ave-, numa extensão de cerca de um quilómetro, já em território da Gandra e Abelheira, aqui e ali com alguns “vestígios antigos” (notando-se as marcas dos rodados das carroças ou de carros de bois).

Já na zona da Abelheira, encostado a um muro de uma quinta privada, existe um pequeno marco, que está a ser estudado por investigadores de história romana. Junto à “divisória que separa a freguesia de São Martinho de Bougado da de Lousado, mais precisamente no lugar da Cidreira, na margem esquerda do rio Ave, encontram-se bem marcados no xisto, de que é formado o terreno, os vestígios da antiga via romana…” (Napoleão de Sousa Marques em Cidade da Trofa – Duas comunidades… Um só Povo”).

A cerca de uma centena e meia de metros antes da ponte da Lagoncinha (em Lousado) existe a “ponte sobre o ribeiro de Ervosa” – também conhecida por “Ponte Velha”, – igualmente romana -, que, segundo alguns historiadores, sempre fez parte do território de Ervosa durante toda a Idade Média… até ao ano de 1834, em que a paróquia de São Bartolomeu de Ervosa foi extinta…

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Ponte da Lagoncinha

Esta ponte poderá ter sido construída no tempo dos romanos. Na sua forma atual, a ponte é uma construção medieval, mas é bem provável a existência de uma anterior romana nesta passagem natural, embora não existam vestígios concludentes; num documento de 1054, há referência à ponte e à via romana “per illam carrarium antiquam quo uadit a ilum pontem petrinum (PMH DC 287).

Na carta do Couto do Mosteiro de Santo Tirso, do ano de 1097, aparece uma “ponte antiqua de flumine Ave (PMH DC 864)”, mostrando que no século XI já existia neste local uma ponte de pedra sobre o rio Ave, possivelmente um pouco a montante junto da Cruz do Lugar das Marcas (Barroca 2004), numa época em que a Via Romana (Via XVI) estabelecia a ligação entre Porto e Santarém, naquela que era considerada uma das mais importantes vias do Império Romano.

Segundo um original antigo, e alegadamente escrito no século XIII, “Vias Romanas em Portugal” – Itinerário XVI-Bracara-Calle-Aemnium, Olisipo, na travessia do rio Ave há uma ponte “romana” chamada “Medieval da Lagoncinha”.

A atual ponte da Lagoncinha terá sido a passagem mais antiga sobre o rio Ave, nestas redondezas, e, segundo alguns historiadores, foi erigida a expensas de D. Goncinha.

Cerca do ano 1103, existia uma senhora, com bastantes posses, chamada Godinha Polizeris, ao tempo esposa de D. Egas Ermiges. Esta doou ao Mosteiro de Santo Tirso, através do Abade Gaudemiro, uma herdade em Bougado (S. Martinho?) e a oitava parte da Igreja de São Mamede de Ribeirão. D. Goncinha (Godinha) era “uma senhora illustre que morava junto ao Rio Ave, junto à ponte, que dela parece tomou o nome com alguma corrupção do vocábulo, porque ainda hoje se chama ponte da Lagoncinha” (frei Leão de Santo Tomás, ob.cit,pág 24). “D. Goncinha Dunes, filha de Nuno Soares Velho e Ausenda Tudereis, estava ligada à família patronal do Mosteiro de Santo Tirso, pelo lado materno” (referência de um autor biográfico). Conta-se que “no remanso paradisíaco do Ave junto à ponte da Lagoncinha e capela de São Lourenço, a moça (D. Goncinha), que a lenda não diz ser bonita se feia, mas romântica, por certo, esperou o seu pagem fazendo ‘rendez vous’ de tabuleiro de seixo e granito, que sobre o rio, ligava Santarém a Braga, e lá do fundo, no espelho das águas a sua imagem, de largos e fartos bandos, reflectia-se sonhadora e poética…” (Jornal de Famalicão-285-11.09.1954).

Esta ponte sofreu várias requalificações/reparações ao longo de vários séculos (XI, XII, XV, XX) e ultimamente, durante o ano de 2018.

Entre os séculos XVI e XVII, a ponte pertenceu, na sua metade sul (do lado de Ervosa), à Câmara do Porto, na metade norte (do lado de Lousado), à de Barcelos. Entre estas entidades houve sempre vários desentendimentos e prolongados litígios, sobre a posse, tanto da Ponte, como das respetivas áreas (divisões) administrativas (entre os bispos de Braga e Porto), sendo que alguns deles tiveram que ser “resolvidos” pelos papas Pascoal II e Calixto II, respetivamente, pois, “de jure” a ponte chegou a “pertencer” à paróquia de São Bartolomeu de Ervosa, que mais tarde veio a chamar-se Sam Bertolameu da Lagoncinha.

Nota: Os historiadores Prof. Carvalho Correia e Napoleão de Sousa Marques “dão eco” desses litígios nas suas obras de investigação sobre a história da paróquia de São Bartolomeu de Ervosa e a sua “relação” com a ponte da Lagoncinha. O professor Napoleão Sousa Marques adianta que esses “litígios duraram muito tempo reivindicando cada uma das dioceses (Braga e Porto) a posse administrativa dessa ponte, assim como do território adjacente onde a mesma se situava…”

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Edição 698

A Trofa na rota da Via Romana (VIA XVI Braga-Porto-Lisboa) – Parte 1

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O itinerário da Via Romana que atravessou a Trofa é Monumento Nacional

Desde tempos imemoriais que os povos, para se comunicarem entre si, precisavam de se deslocar de um povoado para o(s) outro(s) e/ou de uma cidade para outra. Assim o fizeram também os romanos na Península Ibérica: “abriram” estradas -pequenas ou grandes – a que deram o nome de Viae (vias) romanas para o movimento terrestre dos exércitos, funcionários do governo e de civis. Segundo Flávio Ribeiro, “a rede viária do mundo romano constitui uma das mais impressionantes realizações da engenharia antiga… As grandes estradas romanas foram construídas de acordo com preocupações de ordem estratégica e administrativa, servindo, eventualmente, interesses económicos. Ligando as capitais regionais, as fronteiras e os portos, as vias contribuíram de forma notável para a difusão da civilização romana e para a unidade do Império”.

“O sistema viário romano era constituído por estradas estatais (públicas, militares) e municipais, a que se juntava toda uma série de caminhos secundários. Ao longo das vias principais, eram colocados de milha em milha, cipos ou colunas indicadoras das distâncias a percorrer em relação ao ponto de partida ou de chegada da via, os marcos miliários. Para além da indicação da milha, (milia passuum 1.481,50m) os marcos contêm outras informações, nomeadamente o nome do imperador que o mandou erigir”.
Em Portugal ainda existem muitos vestígios de estradas romanas, em especial das grandes “Viae(vias) Olisipo/Bracara,(Via XVI) Olisipo/Emerita, Bracara/Asturica, etc.

Através da DGPC (Direção Geral do Património Cultural), eis o que consta, sobre a Via Romana XVI-Bracara-Cale (Braga-Porto) no que concerne à Divisão Administrativa do Porto/Trofa (Bougado – São Martinho e Santiago, Alvarelhos e Muro- três freguesias do atual concelho da Trofa por onde “passava” a antiga Via Romana), com classificação de Monumento Nacional- Dec de 16.06.1910 , DG nº 136 de 23/06/1910: ‘ (parte)

“Classificada em 1910 como Monumento Nacional, a ‘Via romana de Braga ao Porto’ foi edificada durante o período de romanização do actual território português, identificada por oito marcos miliários pertencentes à antiga Via XVI, destinada a ligar as importantes cidades de Bracara Augusta (Braga) e de Olisipo (Lisboa), a primeira das quais constituía, ao tempo, o núcleo urbano mais relevante de todo o Conventus Bracaraugustanus.

O território abrangido, na atualidade, pelo concelho da Trofa é particularmente rico em vestígios da presença romana, nomeadamente no que se refere a elementos remanescentes do processo de afirmação do Império Romano, que contemplava a implementação de uma política administrativa assente em dois vetores vitais para a sua perpetuação: na definição de unidades político-administrativas e no traçado de vias que assegurassem uma ligação permanente e célere entre os principais centros (Cf. ALARCÃO, Jorge Manuel N. L., 1990).

É o caso da “Via de Braga ao Porto, 8 marcos miliários, série Capela”, designação tomada a partir do nome do Padre Martins Capela que os identificou na obra “Marcos Miliários do Conventus Bracaraugustanus”, publicada em finais do século XIX. Mas não só, pois a sua localização resultava, de igual modo, de uma ampla campanha de salvaguarda do património, promovida pelo Conselho Superior dos Monumentos Nacionaes, então adstrito ao Ministerio das Obras Publicas, Commercio e Industria, no âmbito da qual a inventariação das (então) denominadas riquezas artísticas e arqueológicas ocupava um lugar central. Um esforço que resultaria na sua inclusão na primeira grande listagem de “monumentos nacionais”, decretada em 1910, num testemunho claro da relevância que os vestígios arqueológicos iam assumindo entre nós, e, especialmente, no seio das esferas de decisão política nacional.

Essencial à consolidação da nova administração territorial imposta por Roma, esta via servia os inerentes propósitos militares, ao mesmo tempo que assegurava o transporte de matérias-primas imprescindíveis ao bom desempenho das ordens emanadas do epicentro da nova ordem imperial, com especial relevo para os bens metalíferos. E bastaria examinar a notável concentração de marcos miliários e a própria citação de um número considerável de imperadores, para comprovarmos esta condição, traduzida nas permanentes intervenções de conservação realizadas ao longo do seu percurso.

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Os miliários em análise foram mandados colocar ao longo de cerca de 20 anos, durante os impérios de Publius Aelius Traianus Hadrianus (Adriano) (76-138 d. C.), Marcus Aurelius Antoninus – Caracala – (c. 186-217 d. C.) – a quem se deveu a elevação de Bracara Augusta a capital da ‘Galécia’ (a actual Galiza) -, Flavius Galerius Valerius Licinianus Licinius (250-325 d. C.) e, por fim, de
Flavio Giulio Costante (321-356 d. C.). [Amartins]”.

“O itinerário romano de Bracara Augusta a Olisipo (Braga-Lisboa) estabeleceu a rota definitiva entre as cidades, que subsiste até hoje, sobrepondo-se sucessivamente a Estrada Real e a Estrada Nacional 1 até Conimbriga, mas a partir daqui a via segue para Seilium, a actual cidade de Tomar enquanto a EN 1 deriva para poente, por um outro trajecto também romano que ligava Conimbriga às civitas de Collippo, na região de Leiria e Eburobritium, junto a Óbidos. O itinerário utiliza várias vias romanas independentes; inicialmente seguia a via romana de Bracara a Cale (Braga-Porto) num total de 35 milhas para um trajecto hoje praticamente seguro e bem documentado por inúmeros miliários (com pelo menos 25 referências)…” (Itinerários das via Romanas).

Marcos Miliários
Eram padrões singulares que “aliançavam” (= ligavam) ao nome de César, imperador dos Romanos, a informação útil relativa ao número de pés percorridos ou a percorrer. Foram colocados ao longo da estrada do Império Romano (Via Romana XVI de Bracara ‘Braga’ a Cale ‘Porto’). Com intervalos de 1.481,5 metros, estas colunas, de base retangular, eram de altura variável (cerca de 20 polegadas de diâmetro) e pesavam cerca de 2 toneladas. Na base estava inscrito o número da milha relativo à estrada em questão. Na atualidade, são os miliários que permitem aos arqueólogos e historiadores estimar os trajetos das antigas estradas romanas…

Lista dos Marcos Miliários “achados” ou “descobertos”, ao longo dos tempos, no itinerário da Via Romana que atravessa(va) o atual concelho da Trofa:

Muro – Encontrado na Carriça 1 miliário na Quinta do Dr.Lima Barreto dedicado a Maximiano, que, entretanto, foi (destruído)? – ao km 12,7 da EN 14, indicando 23 milhas a Braga.
Alvarelhos – Dentro da Quinta do Paiço: 1 miliário com 1,14m de altura e 1,94m de circunferência (dedicado ao imperador Caesari Traiano Hadriano). Terá sido reutilizado num dos torreões da casa. Foi, certamente, deslocado da via romana, que seria, neste troço coincidente com a EN 14.
Peça Má – Encontrado 1 miliário, dedicado ao imperador Constâncio II, que estará na posse da Casa de Abade de Sousa Maia e 1 fragmento de miliário dedicado a Carino e que estará (hoje?) no jardim da casa antiga de Dr. António Cruz na Trofa Velha.
Antiga ponte sobre o rio Cedões (rio Trofa) na Trofa Velha – Encontrados quatro miliários dedicados aos imperadores Constante, Licínio, Magnêncio e Tácito. Dois estão, atualmente, na Casa da Cultura da Trofa (Constante e Licínio); dos restantes, um estará no Museu Abade Pedrosa, em Santo Tirso, e o outro, dedicado a Tácito (recolhido em 1875), estará desaparecido.
Entre a antiga Estação da CP e a Igreja Matriz de S. Martinho de Bougado terá aparecido um miliário, dedicado a Carino, que estará em local desconhecido.
Ao todo, no decorrer de vários anos, foram encontrados, investigados e documentados ao longo do troço da antiga estrada romana, – no que ao nosso concelho diz respeito, – oito miliários e um fragmento de miliário, cujo património histórico – nos primeiros séculos da nossa era -, foi, é e será, para sempre, de um valor incalculável, mas, por incúria, desleixo e total desconhecimento pela história da nossa terra, (será ignorância?) ou por um pretenso “egoísmo”, desapareceram, (ou alguém fez desaparecer) a quase totalidade deles, restando na Trofa, em local “visível”e ao público apenas dois miliários, que estão na Casa da Cultura. É muito pouco!

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