A um dia de o Partido Comunista Português assinalar cem anos de existência, o NT recupera uma das reportagens realizadas sobre acontecimentos em que o partido esteve envolvido, nomeadamente as movimentações pré e pós- Revolução de Abril.

José Manuel Lopes abriu a porta de casa, em Guidões, para contar, em conjunto com o amigo Cunha da Silva, como foram vividos os momentos pré e pós Revolução de Abril na Trofa.

Corria o ano de 1958, em pleno período eleitoral. A 8 de junho as urnas eram abertas para que a população elegesse o próximo Presidente da República. Américo Tomás, anterior ministro dos Assuntos Navais do Governo de António Oliveira Salazar, e Humberto Delgado, candidato independente apoiado pela oposição democrática, iam a sufrágio. Para muitos portugueses, esta era a oportunidade para derrubar o regime.
Assim como em vários pontos do país, na Trofa viveram-se momentos de euforia eleitoral. Camiões com a imagem de Delgado passearam pelas ruas. Cartazes foram erguidos e pichagens denunciavam que, nesta terra, havia quem quisesse que Salazar caísse.
Cunha da Silva era um deles. Nessas eleições, recorda, deslocou-se à escola que existia perto da Capela Nossa Senhora das Dores para votar. “Estava na fila ansioso por poder exercer o direito de votar, mas quando cheguei à frente, na consulta aos cadernos eleitorais disseram que o meu nome não constava. Eles sabiam que eu era incómodo ao regime”, contou no decorrer de uma longa conversa com o NT, em Guidões, na casa de José Manuel Lopes, filho de uma das famílias que também se opuseram fortemente à ditadura.
Correram rumores de que as eleições foram alvo de golpe fraudulento por parte do regime salazarista e o clima de medo – muito alimentado pela PIDE, polícia secreta do Governo – contribuiu para que, após as votações, tudo fosse ocultado. Paredes onde antes se lia “Viva Humberto Delgado” ganharam pintura nova. “Foi tudo limpo”, recordou Cunha da Silva.
Segundo conta José Manuel Lopes, um dos acérrimos apoiantes do “general sem medo”, Manuel Rodrigues da Silva , mais conhecido por Neca Caleiro, foi um dos que quis apagar definitivamente a sua “pegada humbertista”. “Tinha medo de voltar a ser preso”, recordam os dois trofenses, que viajaram no tempo para recordar a altura em que Manuel Rodrigues da Silva caiu nas “garras” da PIDE.

Preso político “por engano”

O acontecimento deverá remontar à década de 50, estimam Cunha da Silva e José Manuel Lopes. Manuel Rodrigues da Silva fazia malas, algumas com um “fundo falso” com “cinco centímetros”, que as famílias aproveitavam para guardar os objetos de valor, em casa. “Um dia”, relatou José, “apareceram-lhe três homens que encomendaram uma série de malas com esse fundo falso”. Como era negócio, Manuel Rodrigues da Silva vendeu-as. Só não sabia que estava a ajudar “funcionários clandestinos do Partido Comunista (PC)” que, com aquelas malas, conseguiam “transportar propaganda” escondida.
“A PIDE assaltava as casas clandestinas do partido e numa dessas ocasiões vasculharam essas malas e descobriram o fundo falso com a propaganda. Acabou por descobrir quem era o fabricante das malas e levaram-no preso”, recordou José Manuel Lopes.
Manuel Rodrigues da Silva foi levado para a prisão da PIDE, no Porto, onde “se viu atrapalhado”. Segundo José Manuel Lopes, o trofense “diz que quem o salvou foi um militante destacado do PC, o Jorge Araújo”, pois “chegou a equacionar o suicídio”. “Passou um mau bocado. Esteve isolado numa cela às escuras, perdeu a noção das horas e dos dias, não comunicava com a família e só saía para ser interrogado para revelar a identidade dos homens que compraram as malas. Ao fim de um mês, acho, algumas figuras da Trofa movimentaram-se e foram em auxílio do homem. Como ele tinha sempre a mesma versão, que era a verdadeira, porque não sabia quem realmente eram aqueles homens, acabaram por soltá-lo”.

A sede do MDP na Trofa

A Trofa não esteve de fora do clima oposicionista que crescia as penumbras. Esta terra que ainda não era vila desenvolveu algumas movimentações através dos seus militantes, que operavam num dos “ninhos” do Movimento Democrático Português (MDP), situado “em frente ao Quiosque do Pedro, na Sapataria Lopes”. Um dia, em 1969, a DGS, polícia política “irmã” da PIDE, entra de rompante na sede para “apreender a cartilha do povo”. “Aquela cartilha era feita para explicar a questão da guerra colonial, de como se vivia mal em relação a França e de como não vivíamos em liberdade. Ao início, eles (Governo) ainda deixaram circular a cartilha, mas a determinada altura, as pessoas estavam a procurá-la para ler e então mobilizaram a DGS para a apreender”, contou José Manuel Lopes.
No “auto de apreensão”, contam, “não estavam lá as cartilhas todas”, pelo que ainda foi possível “colocar muitas debaixo das portas e nos marcos de correio”. Cunha da Silva recorda ainda que, nesse momento, Eduardo Pinto Ribeiro, então chefe de redação do Jornal da Trofa, “chegou a ser levado, mas acabou libertado pouco tempo depois”.
Quanto a identidade de “bufos”, anónimos que a troco de dinheiro informavam a polícia política de opositores do regime, Cunha da Silva e José Manuel Lopes revelam que “havia desconfianças”, mas nunca “confirmações”. No reverso da medalha, recorda alguns dos muitos trofenses que lutaram pela mudança do estado das coisas: “José Bento Machado, José Maria Machado, Aníbal Costa Ferreira, Arnaldo Pinto Ribeiro, Eduardo Pinto Ribeiro, Alferdino Mendonça, Narciso Oliveira”.

O Verão Quente

Consumada a Revolução a 25 de Abril de 1974, os tempos de acalmia política estavam longe de alcançar. Nos primeiros tempos, dizem, a euforia democrática calou as vozes “fascistas”, no entanto, o verão quente de 1975 mostrou que essas estavam bem vivas. Cunha da Silva e José Manuel Lopes garantem que é nessa altura que começa uma verdadeira campanha para “sujar” o nome dos comunistas e instalar a desordem. “Houve um comício do PC no Teatro Alves da Cunha, que foi tomado por alguns fulineiros. Quando estávamos a cantar o hino, um deles tocou uma corneta e os outros começaram à porrada connosco, com correntes e bastões. Nós, claro está, reagimos. Foi uma confusão”, relataram.
Essas sessões serviam, segundo referem, como “sessões de esclarecimento” sobre a “verdadeira missão do PCP” e que “não se comiam criancinhas ao pequeno-almoço”. Em reação a esse golpe no comício, foi organizada “uma manifestação enorme na Trofa, com milhares de pessoas na zona envolvente à Rua Conde S. Bento”. A esse ato popular seguiu-se um novo comício, que “correu muito bem” e “sem percalços”.
Mas a “perseguição política” teve muitas formas. Cunha da Silva sabia que estava marcado: “Eu não podia passar por determinadas zonas, senão havia pessoas que me diziam ‘tu, um dia, vais ter uma corda, no Parque’. Houve um dia que a guarda cercou-me a casa para saber se tinha metralhadoras”.
Noutra ocasião, foi agredido pelas costas na cabeça quando fazia uma pichagem. Teve de receber tratamento hospitalar.
Cunha da Silva foi um dos comunistas que estava no interior da sede do PCP, em Vila Nova de Famalicão, quando esta foi tomada de assalto em agosto de 1975.
Ao recordar os ataques à bomba, que chegaram a matar pessoas em S. Martinho do Campo, no concelho de Santo Tirso, Cunha da Silva referiu que “um dos mentores” disse-lhe que a sua casa “não foi pelo ar, porque em frente morava o Flávio Plácido”, com simpatia ideológica mais à direita.

Artigo publicado na edição 668 do jornal O Notícias da Trofa, de 26 de abril de 2018