Criar o próprio negócio é um processo difícil. Ter sucesso é um processo muito mais difícil… e demorado. Há quem resfrie ambições, com medo do futuro, mas outros há que decidem arriscar, em busca de uma condição financeira melhor ou realização pessoal. O NT foi conhecer a história de seis jovens trofenses que criaram o próprio negócio e que, apesar da pandemia, não esmorecem a vontade de serem bem-sucedidos.

Se, há dez anos, alguém dissesse a Carla Patrícia Pereira que ela, em 2020, teria dois negócios, certamente que esse alguém veria a sua sanidade mental colocada em causa. Habituada, desde pequena, a ouvir os pais, gerentes de restaurante, falar das dificuldades de gerir o próprio negócio, Carla foi alimentando a ideia de que era melhor tentar progredir profissionalmente por conta de outrem.

Mas tomando a ousadia de usar o cliché, a vida é recheada de surpresas e Carla Patrícia, com 29 anos e influenciada pelo marido, acabou por se render à “liberdade” profissional. Liberdade entre aspas, porque, afinal, de livre um negócio próprio não tem nada. “Pensa-se na empresa o tempo inteiro. Damos por nós em momento de lazer a falar de ideias para introduzir no negócio. É como se fosse um filho”, conta.

E desde a abertura do primeiro espaço, há sete anos, que Tita, assim conhecida desde os tempos de escola, progride profissionalmente. Abriu, primeiro, num pequeno espaço em Guidões e tal foi o sucesso do negócio que teve necessidade de “migrar” para Alvarelhos, para uma loja maior em frente ao salão paroquial. A filosofia, apesar dos anos de experiência, é a mesma com que iniciou o negócio: transparência e igualdade.

“Seja o serviço que estiver a vender, sou sempre sincera com o cliente. Se achar que não vale a pena, digo, porque não sei trabalhar de outra forma. No início, apostei em apresentar soluções acessíveis a todos os clientes, principalmente às jovens, que não têm tanto poder de compra. E tratei sempre os clientes da mesma maneira, seja um que venha várias vezes ao centro, seja outro que só pode vir uma vez a cada dois meses”.

Mas se Tita conhecia de perto a realidade de um negócio e não se via a lidar com todos os problemas associados a essa gestão, há quem, também conhecedor do que é trabalhar por conta própria, sempre sonhasse criar o próprio emprego.

Foi o que fez Tiago Marques, ou melhor, Gusto. Com 26 anos, abriu uma barbearia em Guidões, para concretizar um sonho “de menino”. “Sempre tive habilidade. Os meus pais sempre tiveram empresas, e sempre me fascinou ter a minha própria empresa. Investi muito do meu tempo para tirar formação e ser capaz de abrir um espaço meu”, conta.

E, diga-se, um “senhor” espaço. Quem entra na barbearia do Gusto quase pode pensar que está diante de um museu, tal é o tesouro cultural que embeleza aqueles metros quadrados. Cadeiras centenárias, malas de barbeiro que ajudam a contar a história do ofício… por aqui é fácil perceber o nível de dedicação e investimento pessoal neste negócio… que para arrancar sofreu alguns solavancos.
“Barbeiro é coisa que o homem não troca. Isso só acontece se o barbeiro estiver doente ou deixar de exercer a profissão. No início não foi fácil, tive, pelo menos, dois dias sem um único cliente”. Mas isso era no início. Pouco tempo antes da pandemia vir mudar a vida de todos, à porta da barbearia “chegava a ter uma fila de 40 pessoas, que eram grupos de amigos que se juntavam para vir cortar o cabelo ou a barba”.

Os medos de avançar

Estudos feitos a meio da última década davam conta de o medo do futuro era o principal motivo para que os jovens não avançassem com negócio próprio.

Na realidade, aponta Tita, “é preciso muita coragem e perseverança”. “Tive muitos medos. Investimos muito dinheiro e só queria ter o meu ordenado e capacidade para pagar as contas. No início, trabalhava das sete da manhã à meia-noite ou uma da manhã. Estava a construir uma casa e queria agradar a todos os clientes. Mais do que investimento financeiro, ter um emprego próprio exige de nós também muito investimento pessoal”.

Gusto cita um dos clientes que mais o marcou: “Não podemos querer abraçar o mundo logo no início”. Sabia, pelo conhecimento que tinha do ofício, que seria muito difícil captar clientes, mas apostou na novidade e especialização. “Aqui não havia nenhum barbeiro e, na Trofa, não havia nada com este conceito. Fomos pioneiros”, regozija-se.

Por outro lado, sabendo tão bem de como funciona um espaço como estes, potenciou as particularidades desta profissão. Dentro daquele espaço, “fala-se de tudo”, futebol, política e até religião. “A história do barbeiro já vem da Grécia antiga. Era aquele que, mais do que cortar cabelo também era dentista, fazia pequenas cirurgias. Tinha um lugar de destaque na sociedade por causa disso, mas também por ser um conselheiro. Com o tempo, o barbeiro foi adaptando a sua função, mas continua, sem dúvida, a ter um papel muito importante como conselheiro dos clientes”.

É caso para dizer: o homem sai do barbeiro mais aliviado da cabeça. Por fora e por dentro!
Depois da tormenta, ventos favoráveis. Atualmente, tem clientes de todas as faixas etárias. Quanto àquele cliente que o tocou, a história que o liga ao jovem barbeiro merece ser contada: “Foi um dos meus primeiros clientes. Estava muito debilitado e disse-me que aquela seria a primeira e a última vez que lhe cortava o cabelo. Voltou muito mais vezes ao longo deste tempo todo. Faleceu este ano e o último corte de cabelo fui fazê-lo ao domicílio. Merecia da minha parte todo o respeito, por sempre me ter motivado a não desistir de seguir este sonho”.

Um tiro no escuro

Por vezes, a necessidade aguça o engenho e serve de trampolim para a aventura. Helena Pinho, 34 anos, trabalhou oito anos num supermercado e, apesar de sempre ter gostado da área, viu-se obrigada a sair, porque “precisava de ganhar mais”. “Como a fábrica para onde fui fechou, agarrei a oportunidade para investir num negocio próprio. Investi tudo, este é o meu projeto de vida.

Tenho aqui o meu passado e tenho aqui o meu futuro, seja ele qual for”, diz, no entanto, satisfeita com o primeiro ano de atividade do supermercado que montou, em Alvarelhos, próximo do Monte de Santa Eufémia.

Apesar da experiência na área, Helena deu um tiro no escuro, porque “não fazia a mínima ideia de quanto ia faturar”, mas “superou todas as expectativas”. Os resultados positivos são, porém, fruto do das energias que canaliza para agradar os clientes. “Pensar que um supermercado com estas características não é viável é uma ideia errada. Temos é de lutar para isso. Tento explorar todas as potencialidades, uso muito as redes sociais para divulgar os produtos e contactar clientes, faço entregas ao domicílio e, durante a pandemia, dediquei-me àqueles que necessitam de ajuda porque estavam em isolamento. Cheguei a ir à farmácia e ao pão, porque já que ia levar compras, também satisfazia essas necessidades. Depois, essas pessoas vieram cá e disseram-me nos olhos que não havia dinheiro que pagasse estes gestos”, recorda.

Filipe Portela também decidiu arriscar num negócio próprio por questões financeiras. Sem horizonte para ter um contrato efetivo, decidiu avançar. “Foi no dia em que o Trump ganhou as eleições nos Estados Unidos, em 2016, que surgiu na minha cabeça toda a ideia de negócio”, recordou.

Até ao nascimento da IOTech, passou-se pouco mais de um ano, até janeiro de 2018. Embalado pelo conhecimento adquirido na formação académica de que a “a tecnologia pode ajudar muito as pessoas e as empresas” e que até então “não tinha havido uma evolução para colocar essa vantagem em prática para o bem das pessoas”, Filipe Portela quis dizer presente e por isso abdicou de ter uma presença tão efetiva na vida política – através da qual foi candidato a presidente da Junta – para criar um projeto empresarial diferenciador.

Conseguiu chamar a atenção e até ganhar um sócio – a “gigante” Riopele detém 10 por cento da empresa –, mas a realidade é que a ideia inicial não vingou. “Queríamos ter uma rede que permitia ligar todas as pessoas e empresas em tempo real. Ou seja, se uma pessoa precisasse de um canalizador, entrava na plataforma e consultava aqueles que estavam disponíveis para lhe resolver o problema. Só que esbarramos numa dificuldade: as pessoas ainda resistem muito a entrarem no mundo tecnológico”, reconheceu.

Apesar do dissabor, Filipe Portela não desistiu. Tomou outro caminho, que, foi, novamente interrompido. Causa: Covid-19. “Desenvolvemos uma solução multiplataforma inovadora para a marcação de presenças, e contexto de trabalho, que não obrigasse o trabalhador a ter de estar, fisicamente, dentro da empresa. Com o telemóvel, podia ‘picar o ponto’, em qualquer lugar. Quando íamos avançar para a prova do conceito, em que precisamos de parceiros para testar a solução, veio a pandemia e tivemos de interromper o desenvolvimento do projeto”.

O que trouxe e levou a pandemia

A pandemia veio dar-nos uma perspetiva muito diferente da vida que tínhamos antes de março. Assim como foi capaz de transformar o negócio de Helena Pinho, que pelas suas características até permitiu um reforço da faturação, também mudou o figurino de muitas profissões. Gusto Marques viu os grupos que se juntavam na barbearia desaparecerem, à conta da limitação do distanciamento social, e, com sentido de responsabilidade, é capaz de ficar a perder para não expor clientes mais vulneráveis. “Tento, ao máximo fazer marcações para que um cliente mais velho seja atendido sem mais ninguém na barbearia. O meu foco agora é fazer um serviço com segurança, porque trabalhamos a milímetros das pessoas, com contacto, por isso, há que fazer um esforço redobrado para não colocarmos ninguém em risco”, sublinhou.

Helena confessa que, no seu caso, os meses de pandemia não deram “hipótese, sequer, para pensar ter medo”. Mas há uma constatação que a tem feito refletir: a duração deste flagelo, que pode pôr em causa muitos negócios, postos de trabalho e estabilidade financeira das famílias: “Rezo para que não haja mais confinamentos totais, porque as pessoas não iam aguentar. Na primeira vaga, eu notava que as pessoas vinham fazer compras com notas de 50 e de 100 euros. Eram poupanças. Muitas já se esgotaram”.

Por outro lado, a pandemia foi capaz de fazer nascer novos negócios. Sandra Araújo não perdeu o emprego, mas durante o confinamento, e dada a gravidez da melhor amiga, decidiu dar aso ao gosto pelas artes manuais e pintar peças para o enxoval do bebé. Foi assim que decidiu coletar-se como artesã e criar o projeto “Gotas de Tinta”, que explora no horário pós-laboral e cujos produtos dá a conhecer na rede social Facebook.

Todo o conhecimento adquiriu-o de forma autodidata: “O meu forte é pintar as típicas fraldinhas à mão, mas componho o enxoval com o body, a toalha de banho e o tapa-ovo”.

O Mickey e a Minnie são os bonecos mais solicitados e, por coincidência, aqueles que Sandra menos gosta de explorar, já que o forte destas personagens são as orelhas pretas, cor que a artesã evita utilizar. “Nestes casos, uso o cinza”, conta, entre risos, antes de reconhecer que o lhe dá mais gozo é o momento em que o cliente diz para pintar ao seu gosto.

No reverso da moeda, lamenta o facto de “haver quem não valorize o trabalho que é feito à mão e diga que as peças são caras”. Pinta uma fralda, por exemplo, pode durar “três horas”, garante. Já para não falar do custo dos materiais.

A Filipe Portela, a Covid-19 também lhe veio dar outras formas de explorar o negócio, umas lucrativas outras solidárias. No primeiro plano, a IOTech explorou a prestação de serviços, tendo também desenvolvido uma plataforma que ajuda os médicos a caracterizar os doentes e o nível de risco que correm se forem infetados pelo novo coronavírus. No plano mais cívico, a empresa desenvolveu um projeto que está prestes a arrancar.

O “IoVoucher” é o nome da aplicação criada para ajudar o comércio local a reforçar as vendas durante a época natalícia: o emissor adquire um voucher em benefício de um recetor, que poderá usá-lo, no período máximo de um ano, numa das entidades comerciais registadas na plataforma.

E o sucesso traduz-se em vontade de almejar mais? Regra geral, sim. Tita, quer montar um novo centro de estética junto ao solário que abriu, mais recentemente, com o marido, Sérgio Sousa.

Helena Pinho abriu um negócio e, pouco tempo depois, viu o marido abrir outro, ligado à construção e decoração. A responsabilidade cresceu, exponencialmente, mas o sonho também: “Quero abrir um novo supermercado mas numa zona mais urbana”, vaticina.

Para quem sentiu vontade de também arriscar, aqui vai o conselho de Filipe Portela: “Para criar um negócio é preciso saber de contabilidade, finanças, gestão e direito. E ter um conhecimento aprofundado dos apoios que o Estado ou a União Europeia vão dando”.

A ousadia de sonhar

Ainda explorou uma loja online, mas o que queria mesmo era ter um espaço próprio. Abriu uma primeira loja ainda antes da pandemia, com a ajuda da mãe, e fechou-a durante a primeira vaga. Quando a situação melhorou, arriscou lançar-se novo negócio na área, no coração do comércio local da cidade. “As pessoas passam mais despercebidas de máscara e chapéu e era assim que eu estava, um dia, na rua, quando ouvi duas senhoras a conversar a questionar-se como é que o Nani ia abrir uma loja numa altura como estas. Fiquei com medo. Estava eu a fazer algo de errado, estaria a cometer um crime?”

Estas histórias revelam a ousadia de quem, mesmo jovem, decidiu lutar por uma vida melhor, recusando-se a engrossar os números que, em agosto deste ano, revelavam que 40 por cento dos jovens adultos portugueses, entre os 25 e os 34 anos, ainda continuavam a viver em casa dos pais. Entre as várias razões, esta: incapacidade financeira. Nani Macedo só não é exceção porque é ainda mais novo: com 22 anos, já vive em casa própria, tem um filho e um negócio próprio. A New Wave Store, loja de vestuário situada na Rua Conde S. Bento é a segunda oportunidade que o jovem dá ao sonho que acalenta desde miúdo. “Sempre fiz desfiles de moda e depois de trabalhar numa loja, fiquei convicto de que este era o meu objetivo, ter uma loja de roupa”, referiu.

Apesar de muito conhecido na cidade, poucas pessoas deverão saber que este jovem está, durante o dia, na loja, e à noite noutro emprego. “Estou a começar a tentar construir a minha vida. Quero dar o melhor aos meus e a mim próprio”.

Nani não está, portanto, a cometer nenhum crime. Está apenas a tentar concretizar um sonho, com todas as dificuldades que um caminho até ao sucesso acarreta.