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A história de João, combatente na guerra da Ucrânia

Deixou a vida de consultor energético na EDP para se juntar à Legião Internacional na Ucrânia, depois da invasão russa.

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Deixou a vida de consultor energético na EDP para se juntar à Legião Internacional na Ucrânia, depois da invasão russa. Sem qualquer experiência militar prévia, decidiu partir motivado por notícias e relatos de amigos, além de um sonho antigo de ser militar. O trofense João Guedes, de 31 anos, deve regressar, em breve, a Portugal, depois de sofrer graves ferimentos após uma missão de 65 dias, em que foi o único sobrevivente da posição onde estava, no que restava de domínio ucraniano na região de Luhansk.

João Guedes chegou à Ucrânia em maio de 2025, e após um período de recruta que se revelou particularmente exigente, com “treinos físicos intensos, longos dias de assalto e a adaptação à vida restrita, longe da família”, João Guedes conseguiu passar com mérito o treino especial antes de ir para o terreno.

Depois de duas missões em Kharkiv, rumou com a sua unidade para as aldeias de Hrekivka e Makivka, consideradas posições estratégicas e de grande dificuldade. João descreve um combate quase contínuo: “A minha posição estava cercada. Trezentos metros à esquerda e à direita posições russas, e um quilómetro à frente com zona de comandos russa. Entre essa distância, havia imensos combates para conseguir avançar”, declara.

A intensidade das missões trouxe consequências físicas graves. Entre ferimentos provocados por explosões, ataques de drones e morteiros, e episódios de soterramento em blindagens destruídas, João passou dias sozinho, sob constante ameaça.

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A primeira lesão sofreu no dia 40 da missão, num ataque em que viu morrer muitos colegas. Seguiram-se “quatro dias a sofrer ataques de drones FPV (First Person View), que tentavam neutralizar a blindagem. “Tive de me barricar dentro dela, porque os drones paravam à porta, à espera que alguém tentasse sair. A única opção foi barricar tudo e escavar. Já estávamos a trabalhar nesse túnel desde o primeiro dia. Passei a viver lá quando a blindagem foi destruída”, relata.

Nesse momento, perdeu a visão do lado direito “por causa da onda expansiva”. Ficou inconsciente e quando acordou “estava tudo em chamas”. “Só me deu tempo de fugir para o túnel e começar a tapar a entrada que ficou, com terra e sacos de areia para as chamas não entrarem. Mas elas acabaram por propagar e tive de fugir para outra posição”.

Aí ficou dois dias, até ser novamente descoberto. Este ataque foi uma verdadeira prova de vida. Um primeiro drone FPV “destruiu o teto” da posição de tiro e, logo a seguir, “um drone Maverick aguardava uma abertura para atirar a granada”, que explodiu a menos de um metro de João Guedes.

“Rebentou-me os tímpanos e deixou-me lesões na coluna. Fiquei inconsciente e soterrado, mas um ucraniano salvou-me. Lembro-me de acordar com falta de ar e de ver o meu colega a escavar para me tirar de lá”, contou.

A 23 de dezembro, foi evacuado com sucesso, numa operação que começou às 05h30 e terminou às 16h00. Foi hospitalizado e esteve internado até 24 de janeiro para receber tratamento até ser deslocalizado para uma casa segura.

Com “lesões permanentes” que o impossibilitam de continuar a combater, João Guedes deve regressar, em breve a Portugal, apesar de ter sido promovido a sargento. “Eu gosto das missões, ficar parado a dar formação não é para mim”, frisa.

Apesar das dificuldades, o combate trouxe-lhe também a sensação de realização pessoal. “Fiz resgates, fiz assaltos, defendi com sucesso. A minha missão foi cumprida com sucesso”, afirma. Reconhece, no entanto, que a guerra é extremamente tecnológica e sangrenta: “A Rússia tem clara vantagem, mas com custos muito elevados de vidas e armamento”. Numa “guerra muito tecnológica”, 70% dos mortos “são por conta de drones”, detalha o soldado.

João descreve ainda a dureza psicológica do conflito, mas afirma estar mentalmente preparado. “Custa muito perder amigos, mas antes de vir para a Ucrânia comecei a ver vídeos de combates, por isso já estava à espera do que podia acontecer”.

“O que, de facto, mudaria a guerra era a Ucrânia receber mais soldados”

Sobre o panorama mais amplo da guerra, João alerta para o custo elevado da ocupação russa e a necessidade de mais apoio à Ucrânia: “Precisamos mais ajuda. Mais armamento e mais soldados. O que, de facto, mudaria a guerra era a Ucrânia receber soldados. Sentimos na pele a sua falta, com longas missões e feridos que não conseguimos evacuar por falta de meios. Eu próprio era para ser evacuado ao dia 40, mas os soldados que me iam substituir acabaram por morrer pelo caminho, depois tudo complicou com as más condições atmosféricas e também a falta de pessoas. Não havia boa cobertura e os drones estavam sempre a voar, não havia como conseguir chegar a mim. Tive de me aguentar e continuar a defender a posição”, recorda.

Apesar de já ter sido notícia a nível nacional, João Guedes não foi contactado pelo Governo, mas alimenta a esperança de poder ajudar o País, passando a experiência que viveu para outros soldados. “Era com muito gosto que o faria. Acho que é muito importante o exército português aprender com esta guerra e preparar os nossos soldados para uma futura guerra, porque nunca se sabe. Toda a Europa está a preparar-se para um conflito armado com a Rússia e, honestamente, se a Ucrânia cair vamos ter esse conflito”, advoga.

Ao refletir sobre a postura europeia, critica a insuficiência de intervenção, mas mantém a convicção de que a Ucrânia resistirá: “Quando os recursos começarem a ficar escassos uma contraofensiva pode acontecer e de certo vai acontecer. A Ucrânia vai lutar por todos os territórios perdidos até ao último homem, porque há um sentimento de vingança em todo o povo”.

Pelo que vai percebendo nos bastidores, João Guedes acredita que “neste momento, a Rússia já começa a sentir o peso da guerra economicamente e em números de perdas que são astronómicas”. “Temos visto que mais de 50% da produção de petróleo russa está destruída ou danificada seriamente. Tem imensos russos a render-se, ou a morrer de frio ou à fome. Há relatos de canibalismo entre eles e de muitos suicídios. A linha da frente está a colapsar”.

Apesar da vantagem ganha no terreno, a Rússia soma perdas gigantes. “Chegam a perder 200 homens para capturar uma posição ucraniana defendida por três pessoas. Eu testemunhei isso com os meus próprios olhos”, garante. Em Povkrosk, as tropas inimigas “avançaram bastante, mas perderam milhares de soldados e equipamentos raros”. “Mais de 2000 blindados destruídos e 50 mil soldados mortos”, conta.

Em Luhansk, diz, “há imensos africanos a combater do lado russo, mal preparados e sem equipamento”. “Muita das vezes vêm assaltar a nossa posição já em estado de hipotermia e fracos, sem comida. Cheguei a combater soldados munidos apenas de uma arma e dois carregadores. Outros vinham com a armadura carregada de granadas para se explodirem dentro das blindagens ou nas trincheiras, para nos tentar destruir a posição e a próxima equipa conseguir-nos abater”, relata.

A guerra, agora, tende a abrandar devido ao frio intenso e às chuvas que se seguem até ao verão, mas João acredita que os ucranianos nunca aceitarão a rendição ou entrega de territórios. “Nunca conheci nenhum ucraniano que me dissesse que entregaria o país à Rússia. Todos querem fim da guerra, mas são contra entregar territórios, mesmo quem não é militar, porque tem família no exército ou já perdeu alguém para a guerra”.

Por isso, o acordo de paz que está a ser promovido pelos Estados Unidos da América é, na ótica do soldado trofense, “péssimo”. “Entregar territórios só vai dar vitória à Rússia e é uma questão de tempo até atacarem o resto. Só lhes vai dar tempo de recuperar e preparar a próxima ofensiva. Diria cinco anos e estaríamos em piores problemas”, antevê.

João Guedes regressará a Portugal para iniciar “uma nova etapa”, depois de uma experiência que ele próprio descreve como “uma linha da frente em que vence quem tem mais vontade de viver”.

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