Crónicas e opinião
A Bandalheira
“Já sabemos que o CH é forte com os fracos e fraco com os fortes. Mas seria importante que os portugueses que vêm nele uma alternativa para Portugal começassem a questionar as razões que explicam o silêncio de Ventura e da sua entourage quando o tema é o envolvimento de Trump no maior escândalo de pedofilia da história.”
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2025 foi o ano em que a bandalheira se normalizou nas relações internacionais. Já por aí tínhamos alguns populistas a dizer as coisas mais obscenas, mas agora temos um autêntico troll na Casa Branca, numa versão ainda pior do que a primeira.
A bandalheira tem diferentes expressões. Uma delas é a banalização do insulto no discurso público. E nesta matéria não há pai para Donald Trump, que insulta qualquer um sem hesitações. Há dias, chamou “porquinha” a uma jornalista que lhe fez uma pergunta incómoda.
A outra disse-lhe que era “feia”. Os seus alvos, contudo, não se esgotam nos jornalistas que se recusam a agir como seus servos.
Um bom exemplo disto é Marjorie Taylor Greene. Greene, uma extremista que se especializou em teorias da conspiração e na promoção do ódio e da violência, foi, até há pouco tempo, uma das mais importantes e fervorosas apoiantes de Donald Trump. Até ao dia em que decidiu questionar a não-divulgação dos ficheiros Epstein e o genocídio em Gaza, e Trump, que fez campanha com a promessa de revelar os ficheiros e de não envolver o país em conflitos armados, mudou radicalmente de discurso e rebaptizou a antiga aliada, agora inimiga pública, de Marjorie Traitor Greene. Estás com Trump? Tudo bem. Levantas questões que não agradam a Trump? És uma traidora.
Outro exemplo é o de Jerome Powell, presidente da Reserva Federal Americana (FED), um “tipo estúpido”, um “numbskull”, porque Trump entende que as taxas de juro devem baixar quando lhe apetece. E Powell, que lidera um órgão independente e imune à arbitrariedade presidencial – por enquanto – disse-lhe que as coisas não funcionam assim. Mas Trump resolveu o problema: em Janeiro vai anunciar um novo presidente para o FED, capaz de ceder a todos os seus caprichos. Até porque Trump não compreende como é que alguém tão incompetente como Powell chegou ao cargo. A resposta, porém, chocará um total de zero pessoas: foi nomeado por Donald Trump.
Os insultos são diários, disparados para todos os lados, e têm vindo a aumentar substancialmente desde que Trump se viu encurralado pelo escândalo de pedofilia orquestrado pelo seu grande amigo, o falecido Jeffrey Epstein. E aquilo que chegou a ser uma promessa de campanha de Trump, a revelação da lista de clientes de Epstein, transformou-se, à medida que a informação foi sendo divulgada, num embuste promovido pelos Democratas. Azar de Trump, nem a base MAGA acreditou de forma unânime na narrativa.
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A pedofilia foi e é um tema central para a base apoiante de Trump, uma espécie de culto fundamentalista conhecido como MAGA. E estes, que eram, até há pouco tempo, os apoiantes mais fiéis do presidente, descobriram o que muitos já sabiam: que a palavra de Trump vale zero. E que Trump está envolvido até à ponta dos cabelos com Epstein, outrora um dos seus melhores amigos.
Já era sabido que Trump se gabava de entrar no backstage dos seus concursos de misses para “inspeccionar” as concorrentes, muitas delas menores. Que disse um dia no programa de Howard Stern que era capaz de “fazer” a própria filha, Ivanka. Que “gostava delas novinhas”.
Que se “divertiu” com miúdas de 14 e 15 anos na ilha de Epstein.
Eis outra expressão da bandalheira promovida por Trump: desde que percebeu que o seu passado devasso e abusador o poderia queimar, fez tudo o que pôde para evitar a divulgação dos ficheiros Epstein. E se muitos dos seus apoiantes não o perdoaram e foram para as redes sociais queimar os seus bonés Make America Great Again, não faltaram aqueles que, por fidelidade canina ao poder do potencial pedófilo, encontraram todas as desculpas possíveis para ilibar o seu líder espiritual. Ao ponto de absoluto nojo de vermos vários comentadores e influenciadores digitais mudar a narrativa para algo como “14 anos já não é assim tão menor”.
A cereja no topo do bolo foi a transferência da pedófila, traficante de menores e namorada de Epstein, Ghislaine Maxwell, para uma prisão de segurança mínima, privada, descrita como um “country club” prisional.
E dos paladinos castradores de pedófilos do lado de cá do Atlântico nem um pio.
Aparentemente, a pedofilia só incomoda quando não são os seus a ser apanhados no maior escândalo de pedofilia da história mundial.
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Importa referir que a bandalheira não se esgota na boçalidade e na relativização da pedofilia. Ela exprimiu-se, por exemplo, quando Trump perdoou e mandou libertar os delinquentes que invadiram o Capitólio a 6 de Janeiro de 2021. Invadiram, vandalizaram, ameaçaram e mataram 5 pessoas, incluindo um polícia.
Exprimiu-se também quando transformou o memorial de Charlie Kirk num comício bizarro, com fogo de artifício e declarações dignas de um velório como “eu odeio os meus adversários”.
E exprime-se, todos os dias, quando Trump promove abertamente o nepotismo, enchendo a Casa Branca de familiares.
Ou quando usa uma viagem ao Médio Oriente para vender a sua meme coin e exigir contratos para as empresas dos filhos.
Ou quando aceita subornos de monarquias absolutas como o Qatar – regime padrinho do Hamas – ou a Arábia Saudita.
Ou quando promove abertamente a corrupção, garantindo perdões presidenciais a novos clientes dos seus negócios obscuros.
Ou quando ameaça invadir o Canadá e a Dinamarca.
Ou quando se transforma num megafone da narrativa do Kremlin.
Ou quando recebe e insulta Zelenskyy na Sala Oval.
Ou quando elogia o “respeito” que os povos chinês e norte-coreano nutrem por Xi ou Kim.
Ou quando manda instalar placas no Hall of Presidents a insultar os ex-presidentes que lhe desagradam. Nunca mais saíamos daqui.
Uma coisa é certa: não há memória de presidente mais bandalho. E poucos o terão superado em termos de corrupção, nepotismo, javardice e encobrimento de esquemas de pedofilia.
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Tendo sido um péssimo ano para o futuro das democracias ocidentais, 2025 foi um ano excelente para ver cair algumas máscaras.
Para perceber que, por exemplo, a corrupção e a pedofilia perdem centralidade em função dos seus praticantes. Se o Chega recebeu Lula da Silva com cartazes a dizer “Chega de corrupção” ou “Lugar de ladrão é na prisão” (onde Lula, de facto, esteve), como receberiam Donald Trump na Assembleia da República? Repetiam o “Chega de corrupção”? Acrescentavam-lhe um “Acabem com o nepotismo” ou um “O que é que estavas a fazer no avião do pedófilo Epstein, 8 vezes?”.
Esqueçam lá isso. A alegada luta da extrema-direita portuguesa contra a corrupção e a pedofilia terminam onde começam os interesses de Donald Trump. Ou de Orbán, outro notável corrupto. Ou de Salvini e Le Pen, durante anos financiados pelo Kremlin. Ou de outros bandalhos como os neonazis da AfD ou os fascistas do Vox, que publicam mapas imaginários de Espanha nas redes sociais, nos quais Portugal surge como província espanhola, o que não impediu Ventura de aparecer num comício do partido a falar em espanhol, sem nunca ter criticado a anexação digital da pátria que diz defender.
Já sabemos que o CH é forte com os fracos e fraco com os fortes. Mas seria importante que os portugueses que vêm nele uma alternativa para Portugal começassem a questionar as razões que explicam o silêncio de Ventura e da sua entourage quando o tema é o envolvimento de Trump no maior escândalo de pedofilia da história. Ou o perdão de criminosos condenados que são seus amigos ou investem nos seus negócios. Ou quando é corrompido por outras nações para baixar tarifas. Ou quando impõe a “paz” russa à Ucrânia. Ou quando usa o Pentágono para financiar a nova empresa do filho.
Será bandalheira do bem?


