Crónicas e opinião
Não passou
“A extrema-direita, na Trofa como no país, continua a não ser opção para a larga maioria dos portugueses.”
A única maioria constitucional de dois terços que existe em Portugal, confirmada no Domingo pelo povo português de forma categórica, não é sociologicamente de esquerda ou de direita. É, isso sim, alinhada com os valores democráticos da república, da Constituição Portuguesa e do espírito liberal que está na base da construção do projecto europeu e da sociedade ocidental como um todo.
O resultado da segunda volta destas presidenciais reforça algo que era já evidente: que a esmagadora maioria dos portugueses (e dos trofenses, já agora) rejeita liminarmente o populismo autoritário de André Ventura. O populismo autoritário, a desinformação constante, a instrumentalização emocional, as encenações para o Tiktok e todo um conjunto de tácticas de propaganda que não colam com a maioria, como a do combate aos tachos, quando nas poucas câmaras em que o partido de Ventura tem algum poder, como Lisboa ou Albufeira, já se começaram a multiplicar os tachos atribuídos pelos eleitos do CH a amigos, familiares, namoradas e boys do partido em geral. De todas as falsidades a que André Ventura já nos habituou, a do combate ao sistema, como ele o concebe, é, simultaneamente, uma das mais desonestas e anedóticas.
Em suma, e ao contrário daquilo que afirmava constantemente em campanha, o povo português não está com Ventura e não o escolheu quando teve a oportunidade de o fazer. O povo escolheu, isso sim, um tipo low profile, afastado da cena política há 10 anos, que não grita, não passa a vida nas redes sociais e não precisa de criar polémicas ou notícias falsas para aparecer. Nem a ser levado ao colo pela imprensa, com entrevistas semanais e a competir pelo topo do ranking do tempo de antena com o primeiro-ministro, Ventura conseguiu ganhar. E a derrota, convenhamos, não é do CH. É sua. Uma eleição presidencial não é partidária: é unipessoal.
Mais um dia feliz na história da república e da jovem democracia portuguesa. O autoritarismo não passou.
E por cá?
Por cá, nada de novo. O concelho da Trofa esteve alinhado com o país na vitória expressiva de António José Seguro, ainda que ligeiramente abaixo do total nacional: 66,8% para Seguro, 33,2% para Ventura. Aqui, Seguro desceu para os 63,97% ao passo que Ventura subiu para os 36,03%.
A leitura, porém, é a mesma. Chamados a escolher entre um social-democrata moderado e um populista radical, os eleitores trofenses escolheram massivamente o primeiro. Seguro vence em todas as freguesias e mais que duplica a sua votação, o que significa que a larga maioria dos eleitores Cotrim de Figueiredo, Marques Mendes e Gouveia e Melo escolheram António José Seguro.
Tratando-se sobretudo de eleitores de direita, outra leitura que pode ser feita é esta: colocados perante a escolha entre um candidato moderado de esquerda e um candidato radical de direita, os eleitores de partidos como o PSD e a IL optaram por Seguro. Porque, ideologias à parte, estes eleitores preferem a ordem constitucional e os valores da democracia liberal à desordem populista e ao iliberalismo que nos aproxima mais da Rússia que dos nossos parceiros europeus.
Quero, por isso, saudar os eleitores trofenses, cuja maturidade democrática não se esgota numa abstenção bem abaixo do total nacional (36,33% na Trofa contra 49,97% no total nacional), mas expressa-se de forma ainda mais significativa no resultado incontestável e na forma como o grosso dos eleitores da direita moderada, conservadora ou liberal, rejeitaram a direita mais extrema representada por André Ventura. Razões mais que suficientes para ficar muito satisfeito com o resultado de Domingo.
A extrema-direita, na Trofa como no país, continua a não ser opção para a larga maioria dos portugueses. Mesmo numa eleição centralizada na figura de André Ventura, o autoproclamado representante de um povo que, maioritariamente, não o quer para seu representante. No meio de tantas tragédias, haja uma boa notícia para animar os entusiastas da democracia liberal.



