Trofa
Médico da Trofa lança livro sobre experiência na Amazónia durante a pandemia
A apresentação do livro de Luís Moreira Gonçalves acontece este domingo, às 17h00, na Feira do Livro do Porto, com a presença do autor.

A história de um médico trofense que enfrentou o caos da pandemia na Amazónia transformou-se numa novela gráfica, que está a ser muito bem recebida no Brasil e chega agora a Portugal, pela editora Zigurate. A apresentação do livro acontece este domingo, às 17h00, na Feira do Livro do Porto, com a presença do autor. O Notícias da Trofa esteve à conversa com Luís Moreira Gonçalves, que, além de enfrentar um cenário que associa a “algo parecido com uma guerra”, teve de lidar com um imbróglio burocrático que, por decidir continuar a ajudar na pandemia, acabou por ditar a perda de emprego na Universidade de São Paulo.
Luís Moreira Gonçalves, licenciado em Medicina, na Universidade do Minho e doutorado em Química pela Universidade do Porto, radicou-se no Brasil, em 2017, depois de algumas viagens corriqueiras pelas terras de Vera Cruz. Era professor de investigação na Universidade de São Paulo e em janeiro de 2021 estava em teletrabalho quando recebeu um email da secretária de Estado de Saúde do Estado da Rondónia: era precisa ajuda urgente naquele estado situado no norte do país com 70% da superfície recoberta pela floresta pluvial amazónica, que se via a braços com a nova variante da Covid-19, a P1. Era premente conter a catástrofe depois da experiência devastadora de Manaus, capital do estado vizinho do Amazonas. “Assustado” e sem muita experiência clínica no terreno, decidiu, mesmo assim, aceitar viajar para Porto Velho, capital da Rondónia, e colaborar num hospital de campanha.

Dois ou três dias depois, na primeira viagem ao norte do Brasil, instalou-se no “epicentro” da catástrofe. O que viveu nos meses seguintes, de tão surreal e traumático, dava um livro. E tanto dava que Luís Moreira Gonçalves decidiu escrever um.
De uma primeira experiência em prosa, passou depois para uma novela gráfica, com a participação do ilustrador Felipe Parucci, para que a leitura de um período tão avassalador “fosse possível” sem carregar o peso de uma realidade ainda difícil de imaginar: morreram 700 mil pessoas no Brasil vítimas da Covid-19.

“Dormindo Entre Cadáveres” é o nome do livro que relata os bastidores da pandemia e materializa o exercício de catarse do médico trofense, quatro anos depois de “meses impressionantes” vividos naquele hospital de campanha em plena Amazónia. Chegou às mãos dos primeiros leitores esta semana e está a ser “muito bem recebido” pela crítica brasileira. Em Portugal, foi acolhido pela Zigurate, editora do jornalista Carlos Vaz Marques, que o vai apresentar na Feira do Livro do Porto, no próximo domingo, 31 de agosto, às 17h00, com a presença do autor.

“Estou a ficar profundamente surpreendido. Várias pessoas que eu não conheço já vieram falar comigo, a contar-me experiências da pandemia e a agradecer-me, dizendo que conseguiram rir e chorar com o livro”, relatou.
A obra, conta Luís Moreira Gonçalves, afasta-se do grande documentário e foca-se em “relatos na primeira pessoa”, com toques anedóticos, que mistura o rigor factual com uma linguagem poética, que evidencia tanto a violência da realidade como a resistência dos profissionais de saúde, doentes e famílias.
Sem uma visão macro, e longe de uma versão estatística, o livro pretende dar emoções nos números, criando um retrato empático e profundamente humano de um período que marcará a História deste século.

O hospital em que Luís Moreira Gonçalves trabalhou conseguiu evitar falta de oxigénio, mas faltavam medicamentos e outros equipamentos. Num pequeno avião em que viajou várias vezes, sobrevoou a Amazónia, para ir buscar doentes. Foi assim que descobriu lugares históricos como Forte do Príncipe da Beira — considerado o maior forte português fora de Portugal — construído nos tempos de D. José I, para proteger as fronteiras do centro-oeste do Brasil nas disputas com a Espanha.

O heroísmo custou-lhe perda do emprego na Universidade
Durante o contributo na luta contra a pandemia, Luís foi confrontado com o que classifica como um calvário kafkiano. Como era investigador da Universidade de São Paulo, foi-lhe recomendado pela reitoria o regresso às funções que desempenhava. Perante a dimensão do problema existente na Rondónia, e por uma questão de princípios que recusou violar, decidiu manter-se no hospital de campanha, sem antes oferecer alternativas à entidade patronal: suspender o regime de dedicação exclusiva, devolver o salário, solicitar licença sem vencimento, usar dias de férias. Nenhuma serviu.
Perante a falta de flexibilidade, e sentindo que a sua ação estava a ser colocada no âmbito da imoralidade, Luís Moreira Gonçalves decidiu pelo pedido de exoneração, cujo processo, quatro anos depois, ainda está por concluir.

“A pandemia, tal como noutros momentos de catástrofe, é um período no qual as instituições são testadas. O que eu retiro do livro é que não foi feita uma avaliação devida do que aconteceu. E eu acho que falta essa reflexão, não para efeitos punitivos, mas sim como forma de aprendizagem, para percebermos o que funcionou bem e melhorarmos nos aspetos em que as coisas correram mal. No meu caso, eu gostava que na Universidade, se houver um caso semelhante ao meu, se questionassem se é válido processar um médico porque ele foi ajudar”, referiu o médico que, atualmente, é psiquiatra em São Paulo. Apesar de este caminho ter sido escolhido independentemente do que se passou em 2021, Luís considera que a experiência na pandemia lhe conferiu mais capacidade para, por exemplo, “falar com pessoas que estão de luto”.
Neste livro, Luís conferiu palavra, traço e memória às vidas anónimas que se entregaram à pandemia — inventariando dor, desolação, medo, mas também esperança e humanidade. Construiu, com Felipe Parucci, um monumento invisível, escondido nas páginas, para que aqueles dias infernais não sejam tragados pelo esquecimento. E, no cerne desse canto encarnado em tinta, ecoa uma pergunta que nos deve permanecer viva: se não guardarmos esta memória, quem outra vez poderá salvá-la quando a história nos empurrar para a fronteira da sobrevivência?
