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Edição 732

2021: A antevisão da batalha eleitoral que nos espera

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O novo ano que esta semana começa, entre outros desafios que nos reserva, será ano de eleições autárquicas. Para o jovem concelho da Trofa, nascido e criado em 1998, este será apenas o sexto acto eleitoral local, apesar de, por vezes, parecer que somos concelho há mais de 100 anos, a julgar pela forma como alguns apoiantes do regime vigente se referem ao autarca em funções como o melhor de sempre, como se o termo de comparação incluísse dezenas de autarcas, e Sérgio Humberto fosse uma espécie de Messias político, que comunica com o Criador através de um iPhone de luxo, pago pelo contribuinte.

É interessante verificar como este mito, habilmente construído na catacumbas da propaganda política mais simplista e demagógica, é fácil de desmontar. Como se “ser o melhor autarca de sempre”, quando as restantes opções são apenas duas, fosse um feito extraordinário. Ou como se fosse extraordinário ter melhores condições de governação que Bernardino Vasconcelos, que teve que começar do zero e nos deixou uma dívida estratosférica – o que não invalidou o pagamento de uma avença milionária ao então líder da JSD, Sérgio Humberto (a história, agora como então, continua a repetir-se, pese embora o ajuste directo de Marta Almeida não seja tão chorudo como o do seu antecessor) – ou que Joana Lima, que, sendo também uma presidente de má memória, governou durante os quatro piores anos da pior crise financeira à escala planetária desde o Crash de 1929.

Sérgio Humberto, no fundo, é uma espécie de António Costa, só que mais fraquinho: teve melhores condições para governar que os seus antecessores, fez umas coisas boas, muito aquém daquilo que poderia ter feito, e distribuiu empregos, avenças e ajustes directos aos amigos e militantes do partido. Com as condições extraordinárias de que beneficiou, era expectável que, em oito anos, muito mais tivesse sido feito. Não obstante, praticamente todas os compromissos do programa de 2013 continuam por cumprir, estando apenas a obra dos Paços do Concelho em andamento, já com previsões de forte derrapagem face ao orçamento inicial.

Regressando às eleições do próximo ano, as máquinas no terreno, numa dimensão nunca antes vista por cá, já as anunciavam a alguns meses, e é de esperar umas quantas inaugurações (ou comícios pré-campanha pagos por nós, como preferirem), quiçá sem a pompa de outros tempos, porque os tempos que vivemos são ainda muito incertos, apesar da vacina, mais ainda num concelho que teima manter-se entre os estatisticamente mais afectados pela pandemia. Esperemos, todos, que por pouco tempo. Que 2021 nos traga pelo menos a tranquilidade que não reina no seio de muitas famílias trofenses.

Antevê-se um ano de combate político feroz. Com o surgimento e ressurgimento de novas ou “adormecidas” forças políticas, com um PS mais motivado e robusto e uma coligação fragilizada por inúmeros escândalos e processos legais, ainda a recuperar da crise do aterro sanitário, que minou a confiança de parte significativa do eleitorado, não é expectável que assistamos ao “passeio no parque” que foram as autárquicas de 2017. Estas eleições vão dar mais trabalho a Sérgio Humberto e à sua equipa, para não falar na situação do vereador Renato Pinto Ribeiro , que será julgado no caso do desvio de fundos do CD Trofense, e do próprio Sérgio Humberto, que enfrentará também a justiça, na qualidade de arguido na Operação Éter, que investiga e julgará vários crimes, cometidos no âmbito da criação da rede de lojas interactivas de turismo do TPNP, entre os quais os de corrupção, activa e passiva, abuso de poder ou participação económica em negócio.

Não obstante, num país onde a tolerância dos cidadãos com fenómenos como Isaltino Morais diz praticamente tudo o que há a dizer, todas estas condicionantes serão, quando muito, um conjunto de pedras no sapato de Sérgio Humberto, que dificilmente afectarão o seu poder quase absoluto.

Ou a histórica posição dominante do PSD Trofa, que nunca perdeu uma eleição autárquica na Trofa, excepto naquela vez em que a luta interna e violenta pelo poder fez cair Bernardino Vasconcelos e criou um vazio de poder que fez emergir Joana Lima. Águas passadas. Hoje, ninguém no seio do PSD Trofa ousa levantar um dedo contra Sérgio Humberto, nem quando este é constituído arguido num processo como a Operação Éter, nem quando é apanhado a negociar um aterro sanitário nas costas dos trofenses, nem quando se sabe que transferiu milhares de euros da autarquia para um jornal de propaganda, nem quando persegue uma associação juvenil por motivo de vingança pessoal, nem quando desbarata recursos públicos em benefício próprio, seja no campo da projecção da imagem, seja através da compra de gadgets de luxo para si e para a elite que o rodeia. Como é bela, e absoluta, a vida na monarquia social-democrata Trofense!

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Bem, eleições e análises políticas à parte, quero aproveitar este último escrito de 2020 para desejar, a todos os meus conterrâneos, um excelente ano de 2021, com muita saúde, alegria, sucesso pessoal e estabilidade, a todos os níveis. Que seja um ano melhor que aquele que termina – não será muito difícil, esperamos – e que a recuperação, sanitária e económica, seja uma realidade pujante que nos permita regressar, passo a passo, à normalidade perdida. Que nos permita voltar a estar com os nossos, abraçar os nossos, beijar os nossos, e olhar para as máscaras e para o álcool-gel como uma recordação do passado. Sei que estou a abusar nos pedidos, mas se não encaramos o novo ano com optimismo quando ele começa, quando o faremos?

Um abraço a todos, sejam felizes e que nada vos falte!

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Edição 732

Memórias e Histórias da Trofa: S. Gonçalo em 1901

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O fatídico ano de 2020 está prestes a terminar e com ele encerram bastantes dificuldades, algumas delas desconhecidas pela maioria da população.

O dezembro termina e o mês que se segue é o janeiro, que marca um dos momentos mais importantes da cultura popular, com a comemoração de S. Gonçalo, na freguesia de Covelas, concelho da Trofa.

Todos nós, certamente, teremos inúmeras histórias para contar sobre estas festas, que são das poucas atividades que os trofenses ainda aderem em bom número e que permitem que o lado mais popular da sua vivência tenha grande destaque cultural.

Uma festa de cariz popular iria ser capaz de atrair um elevado número de pessoas para um evento em que é impossível atestar a sua data de formação com certezas e rigor que a história obriga.
A romaria que venho aqui abordar realizou-se, praticamente, há 120 anos…

(…)

Esta crónica só pode ser lida integralmente na edição impressa do jornal ou através da edição disponível para assinaturas online. Mais informações aqui

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A extraordinária ceia de 1973

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Apesar de ter nascido no dia 26 de Dezembro de 1973, eu, dois dias antes, sem ter consciência de mim, comecei a animar de uma forma diferente uma ceia de Natal, quando o meu pai se ia servir pela segunda vez do bacalhau e dei um sinal de alarme à minha mãe:

– É agora! O nosso menino vai nascer! – diz ela
– Outra vez?! – interroga-se um dos meus tios, depois de se ter servido mais do vinho do que do bacalhau.
– Acho que a Tininha não está a falar do Menino Jesus, mas do nosso filho, que trás na barriga! – clarifica o meu pai.

Como quem se serve mais do copo do que do prato fica mais liberto de espírito, o meu tio exclama o que não teve coragem de dizer durante nove meses:

– Pensei que a Tininha estava a ficar gorda!!!

O meu avô, personagem expansiva e apreciador das diferenças, que sempre se animou com a felicidade dos outros, declara:

– Deve ser o Messias…o outro! Aquele pelo qual os Judeus estão à espera!

Meio perdido com a conversa e com uma espinha de bacalhau espetada na garganta, aquele que dois dias depois seria pai pela primeira vez, reclama:

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– Messias, não! O meu rapaz vai-se chamar José Augusto.
(Tenho um tio, uma tia e uma prima que ainda me tratam por Gustinho)

– Paizinho, paizinho… – grita, aflita, aquela que dois dias depois seria a minha mãe.
(A melhor)

Aquele que dois dias depois viria a ser avô pela quarta vez levanta-se e dirige-se para o telefone:

– Estou! – e a minha avó a pensou que o meu avô estava a telefonar para a ambulância – És tu, António Absolum?

Do outro lado respondem afirmativamente. É o amigo judeu do meu avô.

– O vosso Messias vai nascer! Está aqui em casa, na barriga da minha filha…mas não te preocupes, vamos já para o hospital!

Do outro lado da linha António Absolum diz algo, que faz o meu avô virar-se para o meu pai:

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– Ó Gusto! A vossa lua de mel…
(Este jovem que viria a ser meu pai, o melhor, também é Augusto)
E sem deixar o meu avô terminar a frase, e com os dedos metidos na boca a tentar tirar a espinha, a única coisa que saiu foi:

– Quente! As noites estavam frias, mas a lua de mel foi quente!
O meu avô preferia que o meu pai tivesse cuspido a espinha em vez daquelas palavras, e virado para o telefone.

– A minha filha não vai dar à luz virgem! O vosso Messias também tem que nascer de uma virgem?

O meu tio que se esqueceu de comer e só bebia, olhava admirado para a “pança” da minha mãe e eu, sem consciência de mim, dou mais um sinal vermelho.

– ELE VAI NASCER!!! – berra a minha mãe.

O meu avô regressa à mesa e ao pegar no copo de vinho, a minha avó,
(A melhor)
firme, ordena – Vamos já para o hospital.

Já na rua, as chaves do carro passavam de mão em mão, não estando ninguém em condições de conduzir. O meu tio a pensar que a minha mãe afinal não estava gorda; o meu pai aflito com a espinha na garganta; o meu avô, fora da realidade, a pensar, “Que ser especial estará para nascer”; as mulheres não tinham carta e a minha avó, virada para o meu primo de dezasseis anos, que só bebeu Spur-Cola nessa noite, diz-lhe:

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– Levas tu o carro! – e passa-lhe as chaves para a mão, tendo sido esta a atitude mais sensata.

Chegados ao hospital, o meu tio enquanto aponta para um frasco pendurado numa maca, diz, “Quero beber daquilo!”, e foi colocado a soro; o meu pai foi para “Clínica Geral”, para tirar a espinha, e o médico ao ver a minha mãe, firme e em alta voz, anuncia, “A CRIANÇA VAI NASCER.”
 
E nasci…dois dias depois, no dia 26 de Dezembro de 1973. O meu avô telefonou ao seu amigo judeu e diz-lhe, “Nasceu-me mais um Messias! É o quarto, tão especial como os outros!”.
 
Assim deviam ser as crianças, para os Seus…Especiais!

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