O novo ano que esta semana começa, entre outros desafios que nos reserva, será ano de eleições autárquicas. Para o jovem concelho da Trofa, nascido e criado em 1998, este será apenas o sexto acto eleitoral local, apesar de, por vezes, parecer que somos concelho há mais de 100 anos, a julgar pela forma como alguns apoiantes do regime vigente se referem ao autarca em funções como o melhor de sempre, como se o termo de comparação incluísse dezenas de autarcas, e Sérgio Humberto fosse uma espécie de Messias político, que comunica com o Criador através de um iPhone de luxo, pago pelo contribuinte.

É interessante verificar como este mito, habilmente construído na catacumbas da propaganda política mais simplista e demagógica, é fácil de desmontar. Como se “ser o melhor autarca de sempre”, quando as restantes opções são apenas duas, fosse um feito extraordinário. Ou como se fosse extraordinário ter melhores condições de governação que Bernardino Vasconcelos, que teve que começar do zero e nos deixou uma dívida estratosférica – o que não invalidou o pagamento de uma avença milionária ao então líder da JSD, Sérgio Humberto (a história, agora como então, continua a repetir-se, pese embora o ajuste directo de Marta Almeida não seja tão chorudo como o do seu antecessor) – ou que Joana Lima, que, sendo também uma presidente de má memória, governou durante os quatro piores anos da pior crise financeira à escala planetária desde o Crash de 1929.

Sérgio Humberto, no fundo, é uma espécie de António Costa, só que mais fraquinho: teve melhores condições para governar que os seus antecessores, fez umas coisas boas, muito aquém daquilo que poderia ter feito, e distribuiu empregos, avenças e ajustes directos aos amigos e militantes do partido. Com as condições extraordinárias de que beneficiou, era expectável que, em oito anos, muito mais tivesse sido feito. Não obstante, praticamente todas os compromissos do programa de 2013 continuam por cumprir, estando apenas a obra dos Paços do Concelho em andamento, já com previsões de forte derrapagem face ao orçamento inicial.

Regressando às eleições do próximo ano, as máquinas no terreno, numa dimensão nunca antes vista por cá, já as anunciavam a alguns meses, e é de esperar umas quantas inaugurações (ou comícios pré-campanha pagos por nós, como preferirem), quiçá sem a pompa de outros tempos, porque os tempos que vivemos são ainda muito incertos, apesar da vacina, mais ainda num concelho que teima manter-se entre os estatisticamente mais afectados pela pandemia. Esperemos, todos, que por pouco tempo. Que 2021 nos traga pelo menos a tranquilidade que não reina no seio de muitas famílias trofenses.

Antevê-se um ano de combate político feroz. Com o surgimento e ressurgimento de novas ou “adormecidas” forças políticas, com um PS mais motivado e robusto e uma coligação fragilizada por inúmeros escândalos e processos legais, ainda a recuperar da crise do aterro sanitário, que minou a confiança de parte significativa do eleitorado, não é expectável que assistamos ao “passeio no parque” que foram as autárquicas de 2017. Estas eleições vão dar mais trabalho a Sérgio Humberto e à sua equipa, para não falar na situação do vereador Renato Pinto Ribeiro , que será julgado no caso do desvio de fundos do CD Trofense, e do próprio Sérgio Humberto, que enfrentará também a justiça, na qualidade de arguido na Operação Éter, que investiga e julgará vários crimes, cometidos no âmbito da criação da rede de lojas interactivas de turismo do TPNP, entre os quais os de corrupção, activa e passiva, abuso de poder ou participação económica em negócio.

Não obstante, num país onde a tolerância dos cidadãos com fenómenos como Isaltino Morais diz praticamente tudo o que há a dizer, todas estas condicionantes serão, quando muito, um conjunto de pedras no sapato de Sérgio Humberto, que dificilmente afectarão o seu poder quase absoluto.

Ou a histórica posição dominante do PSD Trofa, que nunca perdeu uma eleição autárquica na Trofa, excepto naquela vez em que a luta interna e violenta pelo poder fez cair Bernardino Vasconcelos e criou um vazio de poder que fez emergir Joana Lima. Águas passadas. Hoje, ninguém no seio do PSD Trofa ousa levantar um dedo contra Sérgio Humberto, nem quando este é constituído arguido num processo como a Operação Éter, nem quando é apanhado a negociar um aterro sanitário nas costas dos trofenses, nem quando se sabe que transferiu milhares de euros da autarquia para um jornal de propaganda, nem quando persegue uma associação juvenil por motivo de vingança pessoal, nem quando desbarata recursos públicos em benefício próprio, seja no campo da projecção da imagem, seja através da compra de gadgets de luxo para si e para a elite que o rodeia. Como é bela, e absoluta, a vida na monarquia social-democrata Trofense!

Bem, eleições e análises políticas à parte, quero aproveitar este último escrito de 2020 para desejar, a todos os meus conterrâneos, um excelente ano de 2021, com muita saúde, alegria, sucesso pessoal e estabilidade, a todos os níveis. Que seja um ano melhor que aquele que termina – não será muito difícil, esperamos – e que a recuperação, sanitária e económica, seja uma realidade pujante que nos permita regressar, passo a passo, à normalidade perdida. Que nos permita voltar a estar com os nossos, abraçar os nossos, beijar os nossos, e olhar para as máscaras e para o álcool-gel como uma recordação do passado. Sei que estou a abusar nos pedidos, mas se não encaramos o novo ano com optimismo quando ele começa, quando o faremos?

Um abraço a todos, sejam felizes e que nada vos falte!