A Câmara da Trofa vai candidatar os santeiros de São Mamede do Coronado a património cultural imaterial da UNESCO, revelou hoje à Lusa o município do distrito do Porto.

O anúncio do executivo coincide com o 104.º aniversário da aparição de Nossa Senhora de Fátima, a quem o “património dos santeiros de São Mamede do Coronado está intrinsecamente ligado” lê-se no comunicado.

“A imagem de Nossa Senhora do Rosário de Fátima chegou à Cova da Iria a 13 de junho de 1920, depois de esculpida pelas mãos do mamedense e mestre santeiro José Ferreira Thedim, herdeiro de uma longa tradição de santeiros, pai e avô, com quem aprendeu o ofício e de quem herdou a oficina”, assinala a autarquia.

A câmara “anuncia oficialmente o início do processo que vai culminar com a apresentação à UNESCO do pedido de inscrição do saber-fazer dos Santeiros de São Mamede do Coronado na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade, como um projeto de cultura, preservação da história e da memória da Trofa e de Portugal”, lê-se ainda.

Citado pelo documento, o presidente da autarquia, Sérgio Humberto, justificou a decisão “considerando que a produção de arte sacra é indissolúvel do território do Vale do Coronado, das suas gentes e da sua identidade cultural, marcando a história local e assumindo-se também como uma arte única em Portugal e no mundo”.

Para o autarca social-democrata, a candidatura “é sustentada pela necessidade de salvaguarda de um ofício ancestral, documentado na localidade desde o século XIX” e cuja tradição querem “proteger e preservar, projetando-a no futuro”, para que “não fique presa no passado”.

“Os santeiros, como localmente são conhecidos, esculpem e pintam à mão, em contexto oficinal, imagens de vulto devocionais em madeira”, descreveu.

Pelas suas “características, qualidades técnicas e artísticas, os trabalhos que realizam são expedidos, ainda hoje, para todo o mundo católico, sendo um importante produto de distinção e de divulgação internacional”, explicou.

De acordo com o comunicado, em 2015 e 2016 a câmara “preparou e submeteu o processo de inscrição do ‘Saber-fazer dos santeiros do Vale do Coronado’ na Lista Nacional do Património Cultural Imaterial do Ministério da Cultura N.º de inventário: PROC/0000000046, processo que está em processo de finalização para poder avançar com o projeto junto da Comissão Nacional da UNESCO”.

A câmara “tem agora um longo processo pela frente de consolidação de um plano de salvaguarda desta arte, apostando na criação de uma escola de formação que perpetue este ofício, classificando alguns locais ligados à história deste ofício como imóveis de interesse municipal e criando um espaço museológico que acolha também o espólio da autarquia ligado à arte sacra”, acrescenta.

“Em curso estão diligências de preparação do grupo de trabalho que integra também o professor e historiador José Manuel Tedim, estudioso da área, filho e neto de santeiros, designadamente sobrinho neto de José Ferreira Thedim, autor da imagem de Nossa Senhora de Fátima”, lê-se ainda.

O ofício, conhecido e desenvolvido por várias famílias do território que constitui hoje a Trofa, está documentado no Vale do Coronado desde, pelo menos, o séc. XIX, acrescenta o comunicado.

Na atualidade, estes profissionais trabalham, na sua maior parte, em casa, num contexto oficinal de um só trabalhador, esculpindo e pintando peças em madeira com métodos e técnicas ancestrais e de elevado nível de execução, descreve a autarquia.