Na primeira crónica que partilhei convosco, abordei a situação assoladora da Itália no combate ao inimigo comum, invisível aos nossos olhos, neste país que, apesar da distância, nos é tão próximo culturalmente.

A vida mudou para todos/as nós; no passado dia 19 de março, o Conselho de Ministros definiu as medidas que vão vigorar no Estado de Emergência, decretado no dia 18 de março, pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

E, efetivamente, esta mudança inerente à situação de pandemia acarreta medos e dúvidas, que poderão ter um impacto muito significativo na saúde mental dos/as portugueses/as, naturalmente extensível à restante população mundial.

Para além do receio expectável de poder vir a contrair a doença, o stress inerente à possibilidade de grandes privações ao nível dos rendimentos, do poder de compra, do pagamento do empréstimo ou da renda da habitação, do desemprego, da acumulação de dívidas, poderá ter um grande impacto na saúde mental dos/as portugueses/as, sendo já, como é sabido, a saúde mental o parente pobre da saúde em Portugal.

Crê-se que em Portugal uma em cada cinco pessoas apresenta um problema de saúde psicológica; parece haver um predomínio superior das perturbações do humor, como por exemplo, da depressão, e das perturbações da ansiedade. Estas perturbações, apesar de, eventualmente, se poderem vir a verificar a curto prazo, será a longo prazo que a prevalência ou o agravamento de algumas situações poderão passar de um nível mais ligeiro ou moderado, para um nível mais grave, potenciando o surgimento de outras perturbações mentais, como as psicoses, principalmente em pessoas menos resilientes ou mais vulneráveis, tanto pela doença, comorbilidades, sistemas de apoio social, como pela incapacidade que poderão vir a sentir em várias áreas da vida.

O impacto da pandemia na saúde mental das pessoas estará associado à morbilidade, mortalidade, à capacidade de resposta do Governo. E refiro-me não só à capacidade de evitar o colapso económico, o desemprego, o aumento das dívidas, mas também de prevenir a doença biopsicossocial e de proteger os/as cidadãos/ãs mais vulneráveis (e.g. das pessoas que coabitam com agressores/as, crianças institucionalizadas, pessoas sem abrigo, …).

Um pouco por todo o país assistimos a medidas remediativas e protecionistas de âmbito social e da saúde mental que estão a ser implementadas, sobretudo, a nível local pelas Autarquias, desejavelmente e na maioria das vezes, em articulação com associações, IPSS e ONG, e por membros atentos e ativos da comunidade.

Apesar de sentirmos esperança, estamos todos/as preocupados/as. É um facto! Por isso, é importante que sejam criados, de forma articulada, meios que ofereçam informação fidedigna, que reforcem as respostas já existentes na comunidade (SNS, Autarquias, IPSS, ONG), sobretudo, ao nível da saúde mental. Neste sentido, não terá necessariamente de passar pela contratação de mais profissionais de saúde mental, mas sim pelo reforço das equipas de âmbito comunitário, constituídas por psicólogos/as, psiquiatras, assistentes sociais, enfermeiros/as… o que aliás tinha sido uma prioridade do Plano Nacional para a Saúde Mental (2007-2016), mas que não foi concretizada. Estas equipas poderão desempenhar um papel muito importante na recuperação, é certo.

Da mesma forma, a um nível local, não esqueçamos as estratégias que as Autarquias estão a desenvolver, em articulação com associações, IPSS e ONG; o apoio da comunidade ou do/a vizinho/a atento/a, e o seu impacto na reposição da normalidade possível e, a médio e a longo prazo, na esperada recuperação!

Até lá, siga orientações de fontes fidedignas de informação; evite estar em busca de permanentes atualizações sobre o novo coronavírus, pois só aumentará a ansiedade; lembre-se de que há fatores que consegue controlar (manter uma atitude positiva, desligar a televisão, encontrar coisas divertidas para fazer em casa, fazer exercício físico e mental, ocupar o dia com aquilo que sempre desejou mas para o qual nunca teve tempo, manter a distância social física recomendável, reforçar hábitos de higiene e de etiqueta respiratória, contactar por telefone amigos/as e familiares…) e fatores que não consegue controlar (como por exemplo, fazer previsões sobre o futuro).

Proteja-se e proteja os seus. Estamos em crer de que #tudovaificarbem!

Sónia Garcia da Costa, Psicóloga