O projecto do Metro do Porto “revolucionou” o sistema de transportes da Área Metropolitana do Porto (AMP), mas falhou ao deixar a Trofa sem ligação, considera fundador da Metro do Porto.   Fernando Gomes, o ex-presidente da Câmara do Porto que apresentou pela primeira vez o metro como solução para os problemas de mobilidade da AMP, lamenta, em declarações à agência Lusa, a inexistência da ligação à Trofa, considerando ser “a pequenina pedra no sapato neste magnífico projecto” do Metro do Porto, que, na sexta-feira, cumpre 10 anos de existência.  

 “Desejo que este projecto prossiga naquilo que ainda falta. Este não é o momento para se fazer, eu sei, vivemos um momento de grande dificuldade, mas desde a altura há um compromisso que não foi cumprido, que é o prolongamento da linha até à Trofa”, sustenta.  

Considerado o “pai” do Metro do Porto, Fernando Gomes entende que, não sendo possível avançar com a expansão da rede devido à crise, “talvez seja altura para se falar” sobre a importância do prolongamento da linha até à Trofa.  “Espero que quando o país tiver condições mais favoráveis se possa fazer esse investimento”, sublinha.  

O ex-autarca, que assumiu a presidência da Metro do Porto desde a sua criação, em 1993, até 1999, ano em que interrompeu o mandato na autarquia para assumir o cargo de ministro da Administração Interna, destaca os habitantes de toda a zona envolvente da Trofa como “os grandes penalizados” em todo o processo. 

A circulação ferroviária da linha da Trofa foi encerrada há mais de 10 anos (Fevereiro de 2002) para que se iniciassem as obras de construção do canal do metro. Contudo, nada foi feito, e os utentes apenas dispõem de um serviço de transportes alternativos em autocarro.  

 Para o socialista, estes 10 anos do Metro do Porto “foram extremamente positivos” e este transporte que “uniu a AMP mostrou estar à altura das expectativas”, apesar de todas as críticas que lhe foram feitas assim que surgiu no papel.  

 “Fomos ambiciosos, até talvez demasiado ambiciosos, e disso nos acusaram”, reconheceu, considerando que o projecto ultrapassou as expectativas “da maior parte das pessoas”. “Falava-se em 20/30 anos [para a construção da rede], o próprio ministro Ferreira do Amaral disse muitas vezes: isto é um projecto que está apenas na cabeça do doutor Fernando Gomes e vai durar dezenas de anos. Não foi assim, felizmente para todos”, diz.

 Para Fernando Gomes, apesar de não ter sido fácil lidar com as críticas, estas serviram de “estímulo, para não desistir e dar as mãos a todos os que acreditavam” ser possível tirar o metro do papel. “Num momento inicial, Matosinhos e Gaia foram decisivos para que o projecto arrancasse. Na altura, eram câmaras socialistas e a solidariedade partidária acabou por funcionar aqui, mas teve um contraponto, o governo era de maioria PSD, de Cavaco Silva, e não foi fácil lidar com essa hostilidade”, recorda.

Sobre o modelo de financiamento adoptado para o projecto  já apontado como desajustado e responsável pelas contas negativas da empresa, Gomes afirmou que “o Metro não devia ter financiado as conversões urbanísticas que se fizeram ao longo dos concelhos” que atravessa.

Sendo as mudanças urbanísticas “uma das questões que prejudicou bastante o modelo financeiro do metropolitano”, foram também elas “uma virtude”, porque de outra forma não se realizariam.

“Eu hoje não sei quantificar, mas muito do volume financeiro que constitui a dívida da Metro do Porto não tem a ver com obras exclusivas do empreendimento, não tem a ver com as estações, trajectos e equipamentos, tem a ver com as reformas urbanísticas que se fizeram em todos os concelhos”, conclui.

Lusa

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