A vacina é um medicamento que potencia o sistema imunológico a reconhecer e combater um agente infecioso com o qual não entrou em contacto anteriormente, sendo um dos métodos mais eficazes para prevenir doenças infeciosas. Quando o sistema imunológico é exposto a um agente causador de doenças, tais como vírus ou bactérias, no momento em que o combate, também irá “aprender” a reconhecer o agente e a desenvolver uma resposta imunológica, com uma produção exacerbada de anticorpos (“memória imunológica”). No fundo, as vacinas aproveitam este mecanismo, recorrendo a pequenas frações de material vírico ou bacteriano (enfraquecido ou inativado), as suas proteínas ou material genético, não causando assim doença. No entanto, poderá ser frequente, o desenvolvimento de alguns sintomas ligeiros, como o inchaço no local de administração ou febre ligeira.

Como se desenvolve uma vacina?

A investigação e o desenvolvimento de uma vacina são processos complexos que, até à fase final, podem levar, em média, 10 a 15 anos, cabendo à indústria farmacêutica o desenvolvimento e produção. Na atual situação pandémica, os cientistas estão a fazer esforços para desenvolver e produzir em massa uma vacina contra o atual agente SARS-CoV-2, responsável pela doença COVID-19, tendo por base as três principais premissas no desenvolvimento de um fármaco: a eficácia, a qualidade e a segurança.

Antes das vacinas entrarem em ensaios clínicos, isto é, testes em seres humanos, têm de passar por rigorosos testes em diferentes modelos, tais como os modelos in vitro (em ambiente controlado) e in vivo (em animais, órgãos ou tecidos vivos). Estes modelos enquadram-se nos ensaios pré-clínicos, não envolvendo, portanto, seres humanos. Estes modelos não humanos permitem realizar ensaios de genotoxicidade, carcinogenicidade, imunotixicidade, entre outros, permitindo determinar o perfil de segurança do fármaco em desenvolvimento antes de se avançar para ensaios em cobaias humanas.

As vacinas mais promissoras são sem dúvida aquelas que já se encontram nas fases clínicas, uma vez que garantiram resultados pré-clínicos favoráveis para avançarem para ensaios clínicos. Mesmo após o início dos estudos em humanos, e sem certeza que dali resultará uma vacina que assegure as três premissas apresentadas anteriormente, o período de investigação assume-se extenso, uma vez que estes ensaios clínicos envolvem, pelo menos, 3 fases:

Fase I – a vacina é testada num pequeno número de pessoas saudáveis. Nesta fase são realizados testes de dosagem (nomeadamente de frequência e intervalo de doses), monitorização de eventuais reações adversas e avaliação da resposta imunológica.

Fase II – a vacina é testada num número maior de pessoas (centenas), divididas em grupos com diferentes condições de ensaio, alargando-se os testes de segurança, assim como estudos mais detalhados da resposta imunológica.

Fase III – a vacina é testada em milhares de pessoas, promovendo-se testes de eficácia em larga escala. Através da comparação com o grupo placebo, os investigadores determinam o número de pessoas infetadas e não infetadas, tirando ilações quanto a imunização da vacina. Também a farmacovigilância, que monitoriza a segurança dos fármacos, está presente na avaliação das reações adversas reportadas pelas cobaias humanas. Esta fase é particularmente importante para revelar evidências sobre reações adversas graves que não foram identificadas em fases anteriores com poucas cobaias.

Que entidades garantem a segurança das vacinas?

Em Portugal, o INFARMED, I.P. enquanto Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde; e a nível europeu a Agência Europeia do Medicamento (EMA, na sigla inglesa). Todos os dados de investigação e desenvolvimento das vacinas, sejam dados de eficácia, qualidade ou segurança, têm de ser reportados a estas entidades, juntamente com o pedido de Autorização de Introdução no Mercado (AIM). Após a garantia de que todos os parâmetros cumprem as condições para a sua introdução na prática clínica, podem passar a ser comercializadas. O mesmo processo é semelhante para os restantes medicamentos.

Em situação excecionais e devidamente justificadas, tal como na atual situação de pandemia, as agências de avaliação de medicamentos, tal como a Agência Europeia do Medicamento, apresentam alguns mecanismos legais para diminuir o período de avaliação do pedido de AIM. A vacina pode receber autorização de uso de emergência antes de obter a aprovação formal. Mesmo após a sua colocação no mercado, os cientistas, seja do lado das autoridades de saúde ou da indústria farmacêutica, continuam a promover a monitorização da eficácia e da segurança da vacina.

Ponto de situação sobre o desenvolvimento de uma vacina contra a COVID-19

A 4 de setembro de 2020, o cenário global de desenvolvimento da vacina contra a COVID-19, contava com 37 vacinas em ensaios clínicos (em humanos) e, pelo menos, 91 vacinas em ensaios pré-clínicos. Nesta data, estão registadas 24 vacinas em fase I, 14 em fase II, 9 em fase III. Embora sem nenhuma vacina aprovada para uso completo e suficientemente seguro, a China e a Rússia aprovaram 3 vacinas sem esperar pelos resultados dos ensaios clínicos de fase III. Vários especialistas a nível mundial alertam que este processo apressado poderá acarretar sérios riscos na utilização destas vacinas.

Os primeiros testes de segurança de vacinas para a COVID-19 em humanos começaram em março, mas o caminho permanece incerto. Algumas tentativas falharam no decorrer dos ensaios, uma vez que não cumpriam, pelo menos, uma das 3 premissas no desenvolvimento de fármacos – a eficácia, a qualidade e a segurança.

Atualizações recentes no desenvolvimento de uma vacina contra a COVID-19:

  • 31 de agosto: vacina da Sanofi passa a ensaios clínicos (fase I);
  • 31 de agosto: China aprova a vacina Sinovac para uso limitado;
  • 28 de agosto: Rússia avança para ensaios clínicos de fase III, duas semanas após a vacina ter recebido aprovação antecipada;
  • 28 de agosto: Cazaquistão avança para ensaios clínicos (fase I).

Renato Ferreira da Silva
Farmacêutico | Investigador na Universidade do Porto