Nem na Segunda Guerra Mundial as escolas fecharam em Itália! E, de facto, à escala global, será a primeira vez que, em setenta e cinco anos, nos confrontamos com um vulto que nos ameaça, que nos povoa os pensamentos e que, para o bem e para o mal, até nos faz mudar alguns hábitos de vida! Li algures que, em Itália, o país europeu mais afetado pelo covid-19, um médico compara o surto de coronavírus à guerra: doentes quase despidos, “ligados às máquinas”, proteções da cabeça aos pés para fazer frente a este inimigo comum, que atormenta sem olhar à classe social, à religião, à etnia ou raça, a tudo aquilo que (insensatamente) nos separa!

O inimigo comum, invisível aos nossos olhos, surge num momento em que nos debatemos com a indiferença, o individualismo, a ausência de empatia, os discursos de ódio e, entre outros, o populismo Salviano que, lentamente, ultrapassa fronteiras e parece enraizar-se nas conversas de café, em que o (novo) monstro começa a ganhar forma, normalizando o desencontro com os valores humanistas (e cristãos) europeus. Da mesma forma, temos vindo a assumir, a chegada do coronavírus às nossas vidas: primeiro, desvalorizando o seu impacto e a sua força de propagação; depois, reconhecendo a sua existência entre nós e, atualmente, tendo-o em consideração na organização das nossas vidas, na alteração de hábitos, de rotinas. Tentamos evitar a sua propagação!

Tantas são as transformações que estamos a viver e tantas são as reações que estamos a despoletar, nomeadamente nas questões da ansiedade e dos comportamentos de relacionamento social. Ora, devemos, por isso, mantermo-nos permanentemente informados, bebendo esclarecimentos e recomendações – sempre – de fontes fidedignas, seguindo as advertências e os conselhos. Esta imensa consternação que nos une, bem gerida, pode trazer-nos mais preocupações, mas também mais civismo e humanidade.

Antonio Gramsci, em Cadernos do Cárcere (1926-1937), referiu “o velho mundo agoniza, um novo mundo tarda a nascer e, nesse claro-escuro, irrompem os monstros”. Durante décadas, acreditámos que os monstros de Gramsci tardariam a voltar. Enganámo-nos. Os monstros voltaram. Mas podemos combater a sua propagação e, desta forma, acreditar na sua metamorfose.

Sónia Garcia da Costa, psicológa