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Edição 654

No ano de 2018 ocorre a celebração do jubileu do 270.º aniversário em que se deu início à primeira Escritura da construção da nova Igreja Matriz de Santiago de Bougado e o conjunto de outras formalidades necessárias para este ato, como sejam procurações e reuniões preparatórias com as pessoas envolvidas na empreitada da mesma. Foi precisamente a 1 de agosto de 1748, escassos meses antes do falecimento de D. Diogo Marques Mourato, o principal obreiro, fundador e mecenas da obra (que havia paroquiado a freguesia de Santiago de Bougado entre 1709 e 1739), que deu procuração ao Deão da Sé do Porto D. Jerónimo de Távora e Noronha Cernache, para tratar de todos os assuntos administrativos conducentes à construção da nova igreja. Esta primeira efeméride-a 1.ª escritura, que poucas vezes é referida, e parece até estar esquecida-é o início de um longo caminho, que passaria por outra escritura-esta já definitiva a 18 de julho de 1754; a obra só ficaria concluída, ainda que provisoriamente em 1761/1762(?), tendo vindo a sofrer uma grande reforma em 1817. Durante este período de tempo da construção do templo, paroquiaram Santiago de Bougado, além do principal fundador Diogo Mourato, vários outros sacerdotes de que se destacam António de Sousa Vieira, Dr. Tomás Sousa Vieira e o sobrinho deste Gaspar Barbosa Pimenta e Sol.

D.Diogo Mourato,D. Jerónimo Távora e Noronha e Nasoni 3 personalidades ligadas à Obra


D. Diogo Mourato, abade que foi da paróquia de Santiago de Bougado, foi o grande impulsionador da fundação da nova igreja matriz de Santiago de Bougado. Nasceu em Tavira em 16.06.1670. Ordenado presbítero em setembro de 1694, doutorou-se em Filosofia na Universidade de Évora e tirou o bacharelato em Direito Canónico em Coimbra Exerceu vários cargos eclesiásticos: foi Desembargador da Mesa do Despacho Eclesiástico. Com a transferência do bispo de Lamego D. Tomás de Almeida para o Porto é nomeado por este para Vigário-Geral da Diocese. Quando o seu Bispo (do Porto) é “requisitado” por D. João V para o Patriarcado de Lisboa- tornando-se no primeiro Patriarca da História de Lisboa,- Diogo Mourato foi promovido a Chanceler da Cúria Patriarcal, acumulando sempre todos estes cargos com o de Abade da paróquia de Santiago de Bougado, cargo que desempenhará durante trinta anos. Durante a sua passagem pela diocese do Porto teve oportunidade de trabalhar com o Cónego (depois) Deão da Sé do Porto, o fidalgo D. Jerónimo Távora e Noronha, que, entretanto, tinha convidado o pintor e decorador Nicolau Nasoni para trabalhar nas obras da Capela -Mor da Sé do Porto. Quando o Fiorentino e Toscano já se encontrava a terminar “o risco” da Torre da Igreja dos Clérigos, D. Diogo Mourato solicitou “os bons ofícios” do Deão da Sé para fazer a planta da igreja de Santiago de Bougado. D. Diogo Mourato viria a falecer a 29 de dezembro de 1749 sem ver o seu sonho-a Igreja Matriz da sua anterior paróquia-realizado...

Deão da Sé do Porto-D. Jerónimo de Távora de Noronha Leme e Cernache nasceu a 20 de novembro de 1690 no Porto(?). Filho de António de Távora de Noronha Leme e Cernache e de Micaela Antónia Freire; irmão de Francisco Távora e Noronha Leme e Cernache e Vicente de Távora e Noronha Cernache. Era filho de uma família de grandes posses de terras. Cargos desempenhados ao longo da sua vida: Capelão Fidalgo da Casa Real, Deão da Sé Catedral do Porto, Senhor dos Direitos Reais de Távora e da Quinta da Aveleira. 10.º Senhor do Morgado dos Cernaches em Chaves, 7.º do de Macieira de Sarnes. Padroeiro das Igrejas de Santa Eulália, de Macieira de Sarnes, de São Pedro Cesar e de Sta Maria Madalena. Senhor da Colheita de Coja. Senhor da Quinta de Loivos da Ribeira, da Casa de Vandoma e das Quintas do Freixo (e Palácio, construído por Nicolau Nasoni) de Fonte Pedrinha e de Fontes, 5.º Administrador do Vínculo do Nousinha e 2.º Senhor de Deão João António Freire; foi Provedor da Santa Casa da Misericórdia do Porto e Presidente da Irmandade dos Clérigos, tendo sido o principal impulsionador da construção da Igreja e Torre dos Clérigos. Era um nobre fidalgo, amante das artes e pintura. Como Deão da Sé Catedral do Porto (durante o período da Sé Vacante-de 1717 a 1741), foi encarregado pelo colégio capitular da Sé para proceder à contratação de Nicolau Nasoni a fim de proceder a várias obras da Catedral. Foi procurador do arquiteto Nasoni e do Bispo D. Diogo Mourato no que tocou ao pagamento das despesas da construção da Igreja de Santiago de Bougado. D. Jerónimo encomendou a Nicolau Nasoni a planta da construção do seu Palácio do Freixo. De linhas arquitetónicas, este palácio é, do ponto de vista artístico, um edifício único na cidade do Porto e um dos mais belos legados de Nicolau Nasoni e do Barroco, no Porto. Hoje, este Palácio é Monumento Nacional desde 1910 e chama-se Pestana-Palácio do Freixo (Pousada do Porto), propriedade da Câmara do Porto que foi concessionada ao Grupo Pestana.

Vida e obra  de Nicolau Nasoni
Nicolau Nasoni nasceu em 2 de Junho de 1691 na terra de San Giovanni Valdarno de Cima do Priorado de São Lourenço, dos Estados do Grão Duque de Toscana (Itália). Era o filho mais velho de dois irmãos. Seus pais foram Gioseppe Francisco Nasoni e Margaretta Kossi. Viveu em Siena, onde aprendeu pintura e artes decorativas e provavelmente arquitetura.Teve como mestre o pintor Gioseppe Nicola Nasini, o arquiteto Jaccopo Franchini e Vicenzo Ferrati. Aos 21 anos já era o responsável pelo cadafalso para a Catedral de Siena, por ocasião das cerimónias fúnebres de Fernando III de Medici. Para se poder movimentar no meio artístico, entrou para a Academia del Rozzi. Os colegas da Academia apelidavam-no de “chorão” lamuriento (Piangollegio).
Tendo sido nomeado novo arcebispo de Viena o sobrinho do Papa Alexandre VIII, houve necessidade de realizar uma grande receção ao arcebispo; a Academia del Rozzi escolheu Nasoni para a execução dos trabalhos artísticos.
Na eleição do novo Grão-Mestre da Ordem de Malta, Nasoni trabalhou no “Carro de Marte” que desfilou no cortejo das comemorações em honra dessa eleição. A sua participação regular nestas celebrações chamou a atenção do conde Francisco Picolomini, amigo de D. António Manuel Vilhena, futuro grão-mestre da Ordem de Malta.
De Siena Nasoni foi para Roma e daqui novamente para Malta onde assinou e pintou um tecto do Palácio de Valeta , em 1724. Foi aqui que Nicolau Nasoni conheceu diversos fidalgos e pessoas ligadas à Igreja Católica entre eles Frei Roque de Távora e Noronha, irmão do então Deão da Sé do Porto D. Jerónimo Távora e Noronha Leme Cernache.
Segundo o historiador Joel Cleto, Nasoni ter-se-á envolvido numa quezília com a Inquisição, por causa de honorários que insistia veementemente e de forma acalorada, para que lhe fossem pagos devidamente. Os protestos foram de tal forma exacerbados que o pintor foi preso. Terá sido certamente para o tirar do cárcere que o Grão-Mestre da Ordem de Malta o recomendou ao Deão da Sé do Porto D. Jerónimo, que, pela influência exercida junto da Inquisição, o terá libertado e trazido rumo à Invicta sob promessa de esquecer qualquer dívida.
Em Mafra, construía-se, por essa altura, a grande obra da época, o Palácio e Convento Barroco projetado pelo arquiteto alemão de formação romana, João Ludovice, obra iniciada em 1717, no meio de grande entusiasmo popular. Portugal vivia um período faustoso de grandes riquezas, graças ao ouro que chegava do Brasil às toneladas, mas as grandes obras concentravam-se na capital.
A cidade do Porto encontrava-se nessa altura em plena revolução artística e cultural. Entretanto o bispo do Porto, D. Tomás de Almeida, foi elevado ao patriarcado de Lisboa, por desejo expresso do monarca de então o rei D. João V, deixando a Sé Vacante desde 1717 até 1741. Nesse intervalo, o colégio capitular da Sé decidiu levar a efeito obras na Catedral e Nicolau Nasoni, através do Deão da Sé D. Jerónimo é convidado a efetuar as obras de restauro , o que o fez a partir de 1725-conforme se veio a descobrir num registo escrito por seu próprio punho: “Niccolo Nasoni fiorentino naturale della terra di S. Giovani Val darno D. Sopra die a di pingere in questa se il 93 E de 1725 e ora 1731 e vene der mezzo vene del S.R. Decana Girolamo Tavora e Norogna”.
Em 1729, mais concretamente em 28 de agosto, há registos de uma escritura, que foi lavrada em casa do Reverendo D. Jerónimo Távora e Noronha, sita na Rua Chã, nas chamadas Casas Nobres de Vandoma. Nessa escritura que foi lavrada publicamente, os “outorgantes são o italiano Bras Castriotto morador na Rua de São Miguel, em nome e como procurador de seu pai Carlos Alexandre Castriotto Ricard, e de sua mãe Carla Francisca moradores nesta cidade (do Porto)e Nicolau Nasoni e a sua mulher Isabel Castriotto Ricardi, também moradora nesta cidade do Porto, à frente do chafariz de São Domingos”. Na referida escritura os pais “haviam prometido um dote de 400$000 reis a Nasoni quando este se casou com a filha Isabel em 31 de Julho de 1729 na Sé Catedral do Porto, tendo como testemunhas D. Jerónimo Távora e Noronha e Miguel Francisco da Silva, este morador no Paço Episcopal e Mestre das Obras de talha que se realizavam na Sé”.
Passado um ano, D. Isabel presenteava o marido Nicolau com um filho, no dia 8 de julho de 1730, que foi baptizado logo no dia 11 com o nome de José, na capela de Vandoma, tendo como padrinhos D. Manuel de Noronha e Meneses, arcediago da Sé, por procuração do seu irmão D. Luis de Noronha e Meneses, abade da Cumieira e o Reverendo Deão D. Jerónimo de Távora e Noronha, por procuração da sua mãe D. Micaela Freire. Dezasseis dias depois do nascimento do filho, morreu Isabel Castriotto,” em 25 de Julho(?) de setecentos e trinta, e foi a sepultar à Sé...” “e não fez testamento”.
Nasoni não estará muito tempo viúvo, até porque o bebé está órfão e necessita de cuidados maternos. Casa-se, em segundas núpcias com uma jovem de cerca de 24 anos, Antónia Mascarenhas Malafaia, natural de Santa Eulália de Lamelas, Santo Tirso (pertencente ao tempo ao concelho de Refojos de Riba d’Ave), filha de António Mascarenhas Malafaia e de Isabel da Silva, em 3 de setembro de 1730 na capela de Nª Sª da Vandoma, que pertencia a D. Micaela Freire tendo como testemunha ou padrinho D. Jerónimo Noronha.
Os fidalgos da Casa de Vandoma apreciavam bastante os trabalhos do artista Nasoni e decidiram transferi-lo da casa da Rua da Chã para as casas antigas perto da capela de Nª Sª da Vandoma, onde viveu o casal Nasoni até se instalar mais tarde nos Paços Episcopais. Deste último casamento nasceram cinco filhos: Margarida, em 1731, António, em 1732, Jerónimo, que recebeu o nome do protetor do parto, D. Jerónimo, em 1733, Francisco, em 1734, e Ana, em 1735.
Em 1732, Nasoni comprou uma pequena propriedade na freguesia de Santa Eulália de Lamelas,-a terra-natal de sua segunda esposa- tendo, de seguida, passado procuração a D. Jerónimo Noronha para tratar de todos os assuntos forenses.
Mercê das boas relações com altos dignitários da Igreja Católica através do seu grande amigo e Deão da Sé do Porto, D. Jerónimo Noronha, contando já com a sua sua boa reputação como Mestre em diversas áreas sobretudo das artes de pintura, escultura, decoração e arquitetura, Nicolau Nasoni tornou-se uma espécie de “Miguel Ângelo” da cidade e um pouco por todo o Norte de Portugal. Nasoni é convidado para fazer vários projetos e restauros, agora na Sé de Lamego, o que realiza entre os anos de 1736 e 1738, executando as pinturas das abóbadas das naves central e laterais. Nas 10 composições, 4 de nave central, 13 em cada uma das naves laterais, o artista representou cenas do Antigo Testamento, utilizando esquemas ilusionistas próprios do barroco italiano de seiscentos, apelidado de barroco triunfante, onde os elementos decorativos (festas, grinaldas, vasos, balaustradas, pinturas e outros) enquadram as cenas principais. Sem qualquer dúvida, Nasoni apresenta na Sé de Lamego a sua melhor produção naquilo que é considerada a melhor representação pictórica ilusionista em Portugal.
O estilo e os trabalhos nasonianos propagam-se por todo o norte do nosso país; devido ao elevado número de pedidos, a espera poderia durar períodos, que em alguns casos chegavam a anos. A atestar esta informação são os projetos elaborados por Francisco da Silva Guimarães mencionados por D. Jerónimo numa carta, datada de 20/06/1743: “Nicolau Nasoni, assim que chegou dessa Vila, e por sinal muito contente, estava ocupado com acrescentar na planta da Igreja de Matosinhos, que tinha feito um relógio frontespício; quarta-feira foi para uma obra de Francisco Guimarães que esperava havia um ano.” A “vila” à qual se refere D. Jerónimo, era Vila do Conde onde Nasoni projetou vários elementos decorativos para a Igreja da Misericórdia. Como confirma o registo de 5 de setembro de 1743, o entalhador Manuel Rocha assinou o contrato que assim referia:
“Antes de fazer o dito mestre a tribuna, irá falar com o mestre arquiteto que fez a planta, para lhe explicar a forma dela e assim fazer, sem diminuição alguma, o qual se chama Nicolau Nasoni, da cidade do Porto”.

Irmandade dos Clérigos História da sua fundação

A história da Irmandade dos Clérigos é multissecular, com origem em 1642, aquando da instituição na cidade do Porto da Confraria dos Clérigos Pobres, em 1654 na edificação da Irmandade de S. Pedro ad Vincula, e em 1666 na fundação da Congregação de S. Filipe de Neri.
As três irmandades estavam sediadas na Igreja da Misericórdia, apesar das suas diferenças, tinham como missão essencial ajudar os clérigos na sua doença, na pobreza e na morte. Uma vez que a sua atividade era semelhante, resolveram fundir-se. A 18 de abril de 1707, ficou decidido instituir-se a Confraria de Nª Sª da Misericórdia de São Pedro ad Vincula e de S. Filipe Neri, hoje designada apenas por Irmandade dos Clérigos. Foram constituídos novos estatutos, foi criado um brasão de armas para identificação da Irmandade e decidiu edificar-se uma sede própria. A 28 de março de 1748, a Confraria agora designada Irmandade dos Clérigos, mudou-se definitivamente para a sua sede: Igreja dos Clérigos.

Igreja e Torre dos Clérigos: A “Menina dos Olhos” de Nasoni e “ex-libris” da Cidade Invicta

A doação de um terreno, localizado no Campo do Olival, que era à época o maior terreno portuense, permitiu à Irmandade dos Clérigos construir uma igreja própria. “A 31 de Maio de 1731, a Irmandade dos Clérigos reuniu-se sob a presidência do Deão da Sé do Porto D. Jerónimo de Távora e Noronha Cernache (agora na qualidade de presidente da Irmandade) que propôs a construção “de uma igreja de raíz no sítio da Cruz da Cassoa” e nessa reunião os confrades decidiram que a nova igreja seria dedicada à Mãe de Jesus sob a invocação de Nª Sª da Assunção. Os confrades resolveram encomendar o projeto da mesma igreja ao arquiteto italiano Nicolau Nasoni. As obras arrancaram logo em abril de 1732, com a abertura dos alicerces, iniciando-se aquela que viria a ser a primeira igreja de Portugal com planta em forma de elipse. De referir que Nasoni “executou o projecto de forma gratuita, apesar dos quase 30 anos que a empreitada viria a durar”.
Em 23 de junho do ano seguinte, “aquando da colocação da primeira pedra, na presença de Nasoni, o Porto assistiu à mais impressiva cerimónia do género feita até então: com um arco em perspectiva simulando a fachada da futura igreja, pintado pelo próprio Nasoni; um dossel armado no sítio onde ficaria o altar; repique de sinos; procissão solene; cânticos e milhares de iluminárias”.
As obras parariam menos de um ano depois; a Irmandade resolve realizar sorteios, assim como permitir a entrada na Irmandade de novos confrades não clérigos para ajudar a pagar o recomeço das obras. Estes novos confrades pagaram uma elevada quantia (“esmola”) para poderem ingressar na Irmandade. As obras da igreja terminariam em 1749. Nessa altura, lançaram-se os alicerces da Torre dos Clérigos .“A mais alta torre sineira de Portugal, que remata o conjunto monumental dos Clérigos, coroa a cidade do Porto desde 1763. Obra-prima do arquiteto italiano Nicolau Nasoni, a Torre dos Clérigos é símbolo da cidade e do País e exemplar incontornável do estilo barroco. Tendo começado a ser construída em 1749, a nova torre de granito, de 75 metros de altura, dividida em seis patamares e servida por uma escada interior de 220 degraus, só foi dada por concluída a 22 de abril de 1763. Foram catorze anos de intenso labor, com dezenas de trabalhadores, sobretudo pedreiros e canteiros...”



Últimos anos de vida


Desde a conclusão da Torre dos Clérigos (1763) até à data da sua morte em 30 de agosto de 1773 não existem registos de quaisquer encomendas de obras ou trabalhos; há cronistas que referem que, após a morte da segunda esposa Antónia Mascarenhas Malafaia, Nasoni fica a viver com a sua filha solteira - Margarida, na viela do Mendes, freguesia de Santo Ildefonso. Magalhães Basto descobriu uma “Acta da Vereação da Câmara do Porto, realizada em 27 de Fevereiro de 1762 na qual foi nomeado determinado indivíduo -Inácio José Xavier de Meireles- para exercer o cargo de Escrivão de Almotaçaria, por desistência que desse cargo fizera António Mascarenhas Nasoni ' o qual se acha degredado por toda a vida para os Estados da Índia´. António Mascarenhas, que tinha assumido aquelas funções em 10 de maio de 1749, era filho de Nasoni. Tendo sido envolvido em 'caso de corrupção' ele foi degredado para a Índia”. Segundo J. Francisco Saraiva de Sousa “esta tragédia deve ter ensombrado a velhice de Nasoni, levando-o à miséria”. Há registos de outros cronistas que referem que outros factos dos últimos anos de vida do “mestre” terão “ajudado” ao afastamento das “lides arquitectónicas”: que terá perdido dinheiro no Brasil; Joel Cleto, historiador, descreve que a seu ver um dos motivos da sua inatividade terá a ver com o “seu protector, grande amigo e responsável pela sua vinda para o Porto D. Jerónimo Távora e Noronha.” Ora, em meados do século XVIII, o Marquês de Pombal, secretário-geral do reino de D. José, encetou uma perseguição à família Távora, uma intriga com consequências dramáticas que culminou na morte de quase todos os seus membros. No Porto ascendia a família dos Almadas, agora responsáveis e mecenas das grandes obras da cidade. Devido à intolerância do primo para com os Távoras e, para não os afrontar, os Almadas poderão ter excluído a hipótese de encomendar obras a Nasoni, por ter sido o arquiteto preferido de um membro daquela família (Deão da Sé do Porto). Assim se poderá explicar a década de absentismo que Nasoni viveu sem qualquer trabalho. Outro mistério reside em torno da sua morte. Defende o mesmo historiador Joel Cleto que, como era considerado um pouco usurário, que emprestava dinheiro a juros, muitos acreditam que o seu negócio possa ter sido mal conduzido, e Nasoni vem a terminar os seus dias longe da glória de outrora... Consta nos registos da Irmandade dos Clérigos a seguinte referência, no que toca à sua morte: “... faleceu da Vida pres.te com todos os Sacram.tos o N. irmão D. Nicolão Nasoni morador na Viella do Paj Ambrosio Freg.ª de Sto Ildefº e foi sepultado nesta igreja sendo assestido p.la irmandade como pobre e se lhe fiserão os tres oficios como também o da sepultura”. Foi sepultado na Igreja dos Clérigos.
Conforme é do domínio público, no ano de 2014 os responsáveis da Igreja dos Clérigos mandaram proceder a obras de restauro na igreja. No final das mesmas foi descoberta uma cripta por baixo do altar-mor. Foram encontrados vários caixões e respetivos restos mortais. Equipas de arqueólogos e antropólogos da Universidade de Coimbra encetaram a partir de de 2015 investigações com vista a descobrir se entre os vinte corpos encontrados na cripta da igreja estão as ossadas do génio Nicolau Nasoni. Desde o século XIX que se “aponta com firmeza” para a probabilidade de o corpo de Nasoni estar na cripta dos Clérigos, mas em setor incerto. Segundo Eugénia Cunha, uma das investigadoras responsáveis por este estudo, este é um processo complexo até à obtenção de elementos decisivos que permitem identificar ou não o corpo de Nicolau Nasoni. Num estudo deste género, para além dos dentes, todo o contexto é fundamental para a identificação.

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