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Edição 642

No rescaldo das eleições autárquicas, três conclusões foram mais ou menos unânimes no seio da sociedade portuguesa: que o passismo colapsou, que a CDU pagou uma pesada factura por querer o melhor de dois mundos na sua relação com o governo minoritário de António Costa e que Portugal é o paraíso na Terra para os Isaltinos desta vida.
Não me alongarei sobre os problemas internos do PSD e da CDU, amplamente esmiuçados por analistas e políticos da esquerda à direita, mas pretendo hoje dedicar este curto escrito a essa grande fatia dos habitantes desta nossa bela pátria, à beira-mar plantada, que por algum motivo gosta de eleger indivíduos pouco recomendáveis. Pior: venera-os.
Reparem, por exemplo, na quantidade de autocarros que chegava diariamente ao estabelecimento prisional de Évora, por altura da estadia do seu mais mediático habitante, José Sócrates. Milhares de pessoas, dos vários cantos do país, deslocavam-se diariamente e em massa para manifestar o seu apoio ao recluso n.º 44. Apesar de tudo o que já era do conhecimento público. De igual modo, existem nas redes sociais dezenas de páginas de apoio a Sócrates, que agregam dezenas (centenas?) de milhar de apoiantes que acreditam piamente na inocência e no elevadíssimo valor deste político de má memória. E não arredam pé.
Escrevo estas linhas após saber que o ex-primeiro-ministro foi formalmente acusado da prática de 31 crimes, que incluem corrupção passiva, branqueamento de capitais, falsificação de documentos e fraude fiscal qualificada. Temo, porque vivo num país incapaz de julgar os poderosos, que o desfecho deste processo estará entre a absolvição e a prescrição de todos os crimes. E não ficarei admirado se Sócrates chegar a Belém entre 2021 e 2026.
Poderia enunciar outros casos, como a comissão de honra da segunda candidatura de Cavaco a Belém repleta de ex-mafiosos, perdão, dirigentes do BPN, o elogio público de Passos Coelho a Dias Loureiro ou o reino do tacho familiar do socialista Carlos César. Nunca mais sairia daqui e penso que quem lê estas linhas saberá o que a casa gasta em termos de falta de vergonha na cara dos políticos que tão amavelmente toleramos. Mas poucas coisas são tão alarmantes, tão escandalosas e tão ilustrativas do estado a que a democracia chegou do que a recente eleição, por maioria absoluta, de Isaltino Morais.
Apesar de tudo o que aconteceu, apesar de ter sido julgado e condenado por crimes que prejudicaram todos os portugueses, em especial os oeirenses, Isaltino Morais montou a sua máquina, eliminou a concorrência e subiu ao Olimpo autárquico na noite de 1 de Outubro, em braços e debaixo de intensas ovações e apoteose. Por mais que tente perceber, não há meio de tudo isto fazer sentido na minha cabeça. Restam as questões: será que os portugueses apreciam ser governados por criminosos? Serão assim tão permissivos para com aqueles que usam os recursos que são de todos em benefício próprio, às claras? Como conseguimos confiar em manipuladores desonestos e sem carácter que, como Sócrates, tentam manipular a imprensa e vergar a comunicação social que não controlam, através de expedientes totalitários? Porque toleramos nós a falsas promessas, as mentiras e o despesismo eleitoralista? Como permitimos que as redes clientelares vivam descansada e confortavelmente, enquanto somos esmagados por cargas fiscais absurdas, sem contestar o tráfico de influências, os arranjos entre amigos e família, os sacos azuis e os contratos públicos manipulados? Talvez haja uma boa razão para tudo isto. Nunca a compreenderei.

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